Em busca do tempo perdido (nas pequenas coisas)
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Entre os fenômenos inevitáveis, o tempo que se esvai talvez seja o principal e mais importante deles. O tempo que passa conduz a tudo e a todos até destinos aos quais é impossível fugir. Entre os caminhos certos daquilo que é, a degradação, a velhice e a morte. Por outro lado, a história trabalha com suas armas possíveis para tentar conter, ou ao menos atenuar, a ação temporal e fazer com que algo fique sobre a terra depois que todos os contemporâneos se forem. Entre estes artifícios, a memória, o registro e a conservação de antiguidades estão entre as mais eficazes.
Mas o que se dizer das coisas mínimas do cotidiano, aquelas imperceptíveis das quais dependemos sem ao menos nos dar conta? Como fazê-las resistir às garras monstruosas do tempo? Fora dos museus instituicionalizados e das mãos de colecionadores, muitos objetos antigos podem ser encontrados pelos sebos de Curitiba, resistindo ao todo poderoso que passa. O filão está, por assim dizer, ao alcance do público comum, que pode adquirir, por pequenas ninharias, peças que de certa forma têm seu valor para a história.
Estes sebos não vendem apenas livros, discos e revistas usadas, como se espera. Com facilidade, encontra-se máquinas de escrever em busca de dedos para tamborilar as teclas, câmeras fotográficas que já não registram nada, moedas sem valor, cartões postais de pontos turísticos antigos, cartas de baralho esperando jogadores, instrumentos musicais que já não tocam nota nenhuma, relógios que não registram o tempo fugidio, pequenos souvenirs, brinquedos, e outros objetos com 30, 40, 60, 80 anos de existência. Enfim, peças cotidianas que não raro teriam lugar no lixo, no esquecimento ou na memória de alguns poucos, encontram um lugar para que possam ser vistas, revistas e até conhecidas. Persistem exercendo um fascínio tremendo, com um cheiro do que não se viveu.
Assim é o Sebo Fígaro (Rua Lamenha Lins, 62A - Centro). Mais que um sebo, o local é um pequeno museu do cotidiano, como o próprio dono do lugar define as grandes cristaleiras abarrotadas de peças espalhadas pela loja. Ao contrário de muitos outros sebos, as peças do Fígaro fazem parte da coleção particular de Paulo José da Costa, que exibe cada aquisição com o orgulho digno de qualquer peça de um Louvre, por exemplo. Com o vírus da coleção desde a infância, Costa diz que tudo o que tem na loja ou em sua coleção particular não pode ser considerado histórico no sentido de que fez parte da História, oficial e com letra maiúscula. Ainda assim, conservam alguma coisa de fascinante.
São peças absolutamente comuns. Gosto de coisas do cotidiano. Não quero a caneta com a qual o Getúlio Vargas assinou um documento. Quero uma caneta comum. Isso diz muito para mim, declara. Mesmo que isoladamente não representem muito, Costa reconhece que o conjunto de tudo o que tem passa a ter valor histórico. Por isso, muita coisa exposta na loja não está a venda: o sebo funciona mais como um mini-museu das pequenas coisas. Mesmo assim, muita gente aparece para comprar. Se estivesse a venda, eu não teria mais nada, diz.
O proprietário do sebo, apesar de trabalhar com a contradição de tentar preservar o efêmero, não tem idéia de onde vem o fascínio das pessoas pelas antiguidades. Trabalho com paixões, histórias..., divaga, tentando chegar a uma conclusão. Não consegue. Diz, porém, que o sentimento de reunir tantos objetos e poder mostrá-los ao público é muito agradável. Muitas gente, depois de passar pela loja, enxerga a importância de preservar. É muito educativo, diz.
Com uma coleção muito grande, que ultrapassa aquilo que está exposto na loja, Costa já pensa no que vai fazer com todos seus objetos. Uma das idéias é tentar criar um Museu do Cotidiano. A intenção é preservar com a persistência da memória aquilo que se vai, aos poucos, escapando por entre os relógios moles. Nós também somos efêmeros, lembra Costa. Não há como negar.


