Em busca do Pránáyama
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
É lógico que não se chega ao auto-conhecimento em quatro horas, mas esse tempo basta para descobrir o quanto não se conhece o próprio corpo. Esse espaço de tempo é suficiente para se ter a confirmação de como é frágil o conjunto de pele, carne, ossos, sangue, células, órgãos que unidos formam o corpo humano, onde a vida é misteriosamente abrigada.
Como a rotina de nosso cotidiano, o corpo também reage se qualquer hábito ao qual está acostumado é mudado. Reage até mesmo se esta mudança for em algo tão comum quanto respirar. No último sábado, esteve em Curitiba o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos. Ele ministrou um curso intensivo sobre respiração e meditação.
Penso que poderia conversar com ele sobre a importância da respiração para a vida e sugiro a pauta. Ao entrar em contato com a escola em que Santos estaria, ele convida este repórter para participar do curso de respiração. Aceito. Preparo-me com dois pensamentos: me abrir ao máximo possível para os ensinamentos e retirar da minha mente todo preconceito e ignorância. Imagino que os efeitos do curso só seriam possíveis se eu vencesse a barreira que existe entre mim e qualquer ensinamento vertical; que o curso só seria válido se eu me desnudasse de qualquer julgamento prévio e me entregasse àquilo com a mesma paixão de quem se dá ao amor.
Sou recebido na escola de yôga com beijos e cumprimentos de todos. Entro na sala toda azul e, mesmo com toda hospitalidade dos outros 12 alunos, sinto-me um organismo estranho e ignorante. Todo meu pensamento anterior sobre entrega fica abalado. No início da aula, fazemos o Pújá, espécie de cumprimento e agradecimento prévio pelo o que será ensinado a seguir. Fechamos os olhos pela primeira vez. Sinto-me observado, mesmo com os olhos de todos os outros cerrados. Ver novamente a luz é um alívio.
Descubro que o método Swásthya, o mais completo de todos os métodos de yôga que existem, é dividido em oito conceitos de ensinamento e que, durante aquelas quatro aulas de curso intensivo, vamos nos ater justamente ao quarto preceito: o Pránáyama. Em sânscrito, Pránáyama quer dizer ''expansão da energia vital por meio da respiração''. Até o momento, meu corpo permanecia igual, como eu o conhecera anteriomente.
Começamos respirando com uma técnica de limpeza das narinas, o Kapalabhati. A técnica consiste em expirar rapidamente, como fazemos quando estamos gripados e sopramos o ar pelo nariz para expelir secreções. Segundo mestre Sérgio Santos, o Kapalabhati faz com que os poros do pulmão se expandam, recebendo mais ar e estimulando os neurônios. A técnica é indicada para ser feita pela manhã, em um ritual de limpeza que também serve para estimular o cérebro. Mesmo com os benefícios anunciados, fazer o Kapalabhati foi constrangedor. Eu estava resfriado.
Entre um exercício e outro, mestre Sérgio faz também observações sobre a respiração. Diz que ''a respiração sustenta a vida. Ficamos sem comer, dormir, mas não sem respirar''. O comentário é óbvio e por isso mesmo assombrador: nunca percebemos que respiramos. O ato é comum, cotidiano, prosaico, rotineiro, repetitivo. A percepção de sua importância é quase nula. O mestre explica que na Índia, berço do yôga, dizem que quanto mais se respira, menos se vive. ''O tempo de vida é medido pelo número de inspiração e expiração'', comenta. A idéia, que a princípio é contraditória, não é de toda absurda quando o mestre lembra da importância de se respirar com qualidade: sempre pelas narinas e de forma abdominal.


