Em busca do parente perdido
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
A aposentada Maria Benta Rocha Mello, de 69 anos, era adolescente quando viu pela última vez a irmã, Maria do Rosário. Na época, as duas moravam no interior do Rio Grande do Sul. Órfãs de mãe ainda crianças, elas e mais seis irmãos foram criados por famílias diferentes, já que o pai não tinha condições de cuidar sozinho dos oito filhos.
Um ano mais nova que a irmã, Maria Benta lembra de ter encontrado Rosário na rua, durante um passeio, antes de perder o contato com ela. ''Minha irmã olhou o vestido que eu estava usando e disse que era muito bonito, que eu tinha sorte de ter ficado com uma família boa. Depois, nunca mais a vi'', recorda-se.
O tempo foi passando, Maria Benta casou-se, veio morar em Curitiba, teve um filho, mas sempre manteve a esperança de reencontrar Rosário. ''Uma vez, há alguns anos, vi uma mulher caminhando pela Rua XV (de Novembro) e fui seguindo atrás dela, achando que podia ser a minha irmã. Ela percebeu e nós até conversamos, mas ela se chamava Maria do Carmo. Em outra ocasião, achei que a tinha visto dentro de um ônibus. Ela se parecia muito comigo quando éramos crianças'', conta a aposentada. A última informação que teve sobre a irmã foi de que ela havia fugido, aos 14 anos, da casa onde morava.
Viúva há seis meses, Maria Benta decidiu dar mais um passo nessa ''investigação'' em dezembro passado, quando procurou o serviço de busca por pessoas desaparecidas oferecido pela Secretaria Especial de Corregedoria e Ouvidoria Geral (Seoge). ''No fim do ano parece que aumenta a vontade de encontrar ela, saber onde mora, se tem filhos. Foi por isso que resolvi fazer a inscrição'', justifica.
Em 4 anos, 410
pessoas encontradas
Casos como esse são muito comuns nas fichas de cadastro do programa Procuro Você, criado em 1993 e reformulado há quatro anos. Segundo as estatísticas do cadastro, entre 2003 e metade do ano passado foram localizadas 410 pessoas. As solicitações de busca chegaram a 319, de janeiro a outubro de 2007, e 10% dos casos foram solucionados.
Uma das 32 pessoas localizadas neste período foi Deusdete Badluck, irmã do professor de geografia Alcides Badluck, morador de Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Aos 43 anos, casado e pai de dois filhos, ele nunca viu a irmã mais velha, fruto do primeiro casamento do pai, o comerciante Theodósio Badluck.
Embora já saiba que a irmã está morando em Ponta Grossa (Campos Gerais), ele ainda não decidiu se irá procurá-la. ''Eu quero muito saber como ela é, se é parecida com meu pai, mas tenho medo de como ela vai reagir'', admite Badluck, que tem outros três irmãos com quem mantém contato. ''Essa parte da família do meu pai sempre foi mais distante, fico em dúvida se devo procurá-la'', diz.
Comerciante encontra
pai após 25 anos
Casamentos desfeitos, fuga dos filhos, mudanças de cidade parecem ser os principais elementos que levam ao ''desaparecimento'' de parentes. Entretanto, há quem, apesar das adversidades, insista em recuperar o passado familiar, reconstruindo a própria história.
O comerciante Everaldo de Mello, morador de Guaratuba, no litoral paranaense, passou 25 dos seus 27 anos sem manter contato com o pai. ''Ele separou-se da minha mãe quando eu era muito pequeno, mas sempre quis reencontrá-lo'', relata. Casado e pai de um meino de 4 anos, Mello teve o incentivo da mulher para obter sucesso em sua busca.
Ele e o pai, José Raimundo de Mello, se reencontraram pouco antes do Natal passado. ''Ele está morando em Marília, no interior de São Paulo, mas veio me ver. Foi emocionante. Mesmo com 67 anos, ele está muito bem. Acho que até melhor do que eu!'', diverte-se o comerciante, que ficou conhecendo também os irmãos do segundo casamento do pai. ''Espero nunca mais deixar de vê-lo. Em fevereiro vou tirar uns dias de férias para visitá-lo'', planeja Mello.


