Em Brasília, mas de olho em Curitiba
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de fevereiro de 2007
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
O ex-prefeito de Curitiba e deputado federal Cassio Taniguchi (PFL) deixa o cargo na Câmara Federal esta semana para se dedicar exclusivamente a um novo desafio: ser secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Distrito Federal. Taniguchi foi convidado para o cargo pelo governador José Roberto Arruda (PFL) que quer transformar a capital brasileira numa cidade modelo para o Brasil. Com planos nas áreas de transporte e meio ambiente, Taniguchi não vai cortar os vínculos com Curitiba - onde foi prefeito, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippuc) e secretário de Estado de Planejamento. Não existe a intenção de retirar o domicílio eleitoral da capital. O que pode significar que o ex-prefeito ainda tenha planos políticos no Paraná.
Taniguchi considera a missão em Brasília como um espelho para o Brasil. Junto com ele, outros técnicos de São Paulo e Minas Gerais foram chamados para a equipe de Arruda com o objetivo de ''fazer o melhor''. A meta é economizar e ter caixa para investimentos em áreas consideradas estratégicas. Copiar o que de bom foi feito em Curitiba é um dos planos de Taniguchi, que já desenha projetos com ônibus biarticulados e canaletas exclusivas para Brasília. O ex-prefeito deu uma entrevista exclusiva à Folha por telefone.
Folha - O que fez o senhor deixar o cargo de deputado federal, para o qual foi eleito, e apostar no secretariado de Brasília?
Taniguchi - A meta de bastante trabalho, com novos desafios. Para dizer a verdade, pensei muito. Sei que fui eleito pelo povo do Paraná. Mas acho que Brasília, por ser capital federal, precisa da colaboração de técnicos de todo o Brasil para virar referência nacional. Vamos trabalhar para mudar o que estamos observando em Brasília.
Folha - O que realmente precisa ser feito em Brasília?
Taniguchi - Nos últimos 16 anos, Brasília foi dominada por uma política de assistencialismo, de paternalismo. É a cultura de que o governo tem que dar tudo. Isso é contrário ao princípio de sustentabilidade. O orçamento de Brasília é de R$ 16 bilhões para uma população de 2,5 milhões de habitantes. Cinco vezes do orçamento de Curitiba, que tem 1,7 milhões de habitantes. E não sobra nenhum centavo em caixa...
Folha - Vocês assumiram o governo com déficit?
Taniguchi - Sim. Um déficit de R$ 280 milhões em caixa. Por quê? Por conta da política de distribuir dinheiro. E até terras. As terras aqui que são públicas eram doadas em lotes de terreno. Isso vai acabar. Acho que a família de baixa renda pode comprar sua casa pagando uma prestação de R$ 15 a R$ 35 por mês.
Folha - Como secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, o senhor pretende fazer quais ações emergenciais?
Taniguchi - Eu assumi a coordenação das áreas de transporte e de obras públicas. A situação do transporte em Brasília é caótica. É dominada por empresários e não pelo setor público. Vou mudar isso. Pretendo fazer vias exclusivas para o transporte coletivo, como em Curitiba, e implantar os ônibus biarticulados. Também tenho que mexer nas vans da capital. Isso é uma praga em Brasília. Apreendemos num dia 83 vans piratas e irregulares. Queremos uma moralização geral.
Folha - E para o meio ambiente?
Taniguchi - O Planalto Central está dentro de uma região de APA (Área de Preservação Ambiental). Tudo aqui tem que ser cuidado com muito critério. Até o ano passado, as ocupações ocorriam de forma desordenada. Temos 500 mil pessoas vivendo em 120 mil condomínios construídos em áreas irregulares. Alguns em áreas de mananciais. Tem condomínios de baixa renda, classe média e de luxo. Aqui era terra de ninguém. Um verdadeiro faroeste. Chegavam aqui, pegavam um lote no setor de chácaras - que é de transição- retaliavam e vendiam. É um escândalo. Nunca vi nada igual. Vamos regulamentar as áreas, os lotes e criar leis.
Folha - O senhor assumiu o cargo de secretário dia primeiro e já se licenciou dia 30 para assumir o cargo de deputado. Agora pedirá licença na Câmara Federal para voltar como secretário. Dá tempo de apresentar algum projeto de lei?
Taniguchi - Vou apresentar um projeto de lei antes de sair com base numa verdade inconveniente para a maioria: ou nós nos conscientizamos da necessidade de preservar o meio ambiente ou nós iremos comprometer gerações futuras. Ainda estou analisando o projeto, mas será nessa linha.
Folha - O senhor pretende deixar o domicílio eleitoral?
Taniguchi - (risos) Nem pensar. Não vou mudar meu domicílio eleitoral.
Folha - Pensa em novas disputas no Paraná?
Taniguchi - Tudo vai depender do nosso desempenho. Brasília é uma vitrine. O que ocorre aqui se reflete no Brasil. Acho que meu objetivo é fazer com que o PFL cresça no Brasil e faça novos prefeitos, novos governadores. Posso disputar algum cargo mais para frente. Por enquanto, vou usar meus conhecimentos nas áreas que atuei em Curitiba para implantar um novo sistema de transporte em Brasília. Vou utilizar o potencial de Curitiba. Estou aqui, mas de olho no Paraná. Pretendo trazer para cá empresas daí, como o Grupo Positivo - que poderá atuar na informática. Muito se queixa que os paranaenses não têm chance de se destacar no cenário nacional. O que estou fazendo é trazendo para cá o know how de Curitiba. Isso aumenta nossa auto-estima.
Folha - Como você vê hoje a administração de Curitiba?
Taniguchi - Quando a gente deixa um cargo, tem que deixar de dar palpites. Acho que o prefeito, o Beto (Richa) é uma liderança nova. É importante renovar quadros. Olha o exemplo do Gustavo (Fruet) que está se destacando no cenário nacional. Acho isso importante. Curitiba sempre teve uma visão estratégica de futuro. Sempre esteve preparada para resolver problemas que poderiam melhorar a qualidade de vida dos seus moradores...
Folha - Em Brasília, qual o pior desafio?
Taniguchi - Verificar as residências que estiverem em setores de APA não regularizados. E retirar dessas áreas todas que estiverem contaminando o meio ambiente. Elas terão que sair. E são muitas. Quero fazer isso independente de ser um condomínio de luxo ou não. Vamos fazer a lei ser cumprida em cima do rico e do pobre. A lei vale para todo mundo.
Folha - Suportando o calor de Brasília?
Taniguchi- (risos) Está igualzinho Curitiba: chove todo o dia!


