Elis, a marca da vida da repórter Dulcinéia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Dulcinéia Novaes 
Comecei a trabalhar na Folha em 1978, quando estava terminando jornalismo. Posso dizer que aprendi a ser jornalista trabalhando na Folha. A universidade deu a base acadêmica. Até então, eu escrevia ensaios de artigos e crônicas, sem idéia do que era realmente um texto jornalístico.
Fui trabalhar primeiro na reportagem geral, eficiente aprendizado pra tratar dos mais variados temas. Quando cheguei não sabia direito nem o que era lead. Mais tarde passei a trabalhar no Caderno 2. Extinta a coluna teen chamada Qual é a deles, que eu fazia, passei a fazer matérias para a página Arte e Comunicação. Já podia assinar as reportagens, começava a ter uma identidade jornalística. Produzia as matérias de capa, com entrevistas, perfis de artistas plásticos, cantores, atores, escritores. E ainda fazia a cobertura dos shows ou das apresentações teatrais.
Nos oito anos que trabalhei na Folha (78 a 86), uma das entrevistas inesquecíveis foi com Elis Regina, em setembro de 81, quando ela fez um show em Londrina. Elis era temida e criticada pela imprensa, por causa da fama de temperamental.Albari RosaCaminhoDulcinéia: trabalho na Folha garantiu profissão
Mas encontrei uma Elis completamente diferente da que falavam, num bom momento da vida e da carreira. Mais leve e resolvida, bom papo, divertida, segura, e dizendo que havia reassumido as rédeas de si e da carreira. Quando falávamos sobre críticas, cobranças, a que tanto ela quanto outros artistas eram submetidos, Elis fez uma observação que marcou. Disse assim: Também é muito difícil as pessoas conviverem com seres vitoriosos; uma pessoa competente, para administrar sua vida e sua carreira e que dê certo nas duas, tem de ter algum defeito. Isso é do brasileiro. O que a angustiava era ficar muitos dias longe de casa e dos três filhos que tinha pra criar. A dose de solidão que o artista normalmente encara é muito maior do que a de qualquer ser humano.
Mal acreditei quando, em janeiro de 82 (dia 19, não esqueço), Elis morreu. Foi um choque. Tive a percepção exata do que um fã sente, quando perde o seu ídolo. Até então eu era fã de Elis, achava-a a cantora de MPB de registros vocais perfeitos, considerava-a única dentro de seu estilo. Mas tive o privilégio de descobrir outra face de Elis naquela entrevista, o que fez com que a admiração por ela fosse mais significativa. E a partir daí mais sensível, até como jornalista, pra entender melhor a relação fã/ídolo.
Certa vez, quando eu já estava trabalhando como repórter de televisão, perguntaram-me: Você gosta mais de jornal ou de TV? As duas atividades se completavam e eu realmente não sabia dar a medida de cada uma. Como dois filhos que você ama igual. A Folha representou uma etapa importante da minha vida jornalística. E que primeiros passos bem dados e orientados! Que bom que pude contar com pessoas experientes e pacientes pra me ensinar. A vida profissional tomou outro rumo, a Folha já não é mais só de Londrina, mas fica aquela saudade gostosa do convívio na Redação, que democraticamente mesclava gerações de jornalistas. A gente só pode lembrar com um enorme carinho daqueles bons tempos da Folha de Londrina, minha escola.
- DULCINÉIA NOVAES é repórter de TV em Curitiba


