Donos de empresas que estão entre as maiores da cidade, eles poderiam concentrar seu tempo e energia nos negócios próprios e na família, como faz a maioria. Mas há gente que não consegue ficar indiferente ao que acontece além de seus muros. E quando é chamada para dar uma contribuição, acaba abraçando a causa. É o caso dos empresários londrinenses Kimiko Yoshii e Ary Sudan.
Antiga voluntária da Apae, dona Kimiko foi chamada para dar "uma ajuda" na Guarda Mirim, instituição que presta atendimento a adolescentes pobres, entre 14 e 18 anos. Isso foi há 13 anos. À época, a entidade estava sob intervenção judicial devido a uma série de irregularidades. O que era para ser um apoio pontual acabou tornando-se uma missão para a empresária, que assumiu a presidência da Guarda.
Com o apoio de uma equipe pedagógica bem preparada, dona Kimiko conseguiu transformar caos em modelo de entidade. Atendendo 425 alunos – vários deles com histórico de envolvimento em delitos -, a Guarda Mirim impressiona. Começando pelas instalações físicas. Não há vidro quebrado, não há parede riscada. Tudo limpo e cheiroso.
O clima entre os alunos também chama a atenção. Em sua maioria, se mostram alegres, saudáveis e disciplinados. "São meninos e meninas que têm grande riqueza dentro deles e só precisam de apoio para se realizar como pessoas de bem", diz a empresária. "Nosso trabalho é chegar até eles antes dos traficantes", alega.
Dona Kimiko explica que a primeira medida tomada por ela quando assumiu a instituição foi desenvolver nos jovens o sentido de "pertencimento". Era preciso que os adolescentes entendessem que a entidade existe para eles. E deu certo. Somente uma zeladora trabalha hoje no local. São os alunos os responsáveis pela maior parte da limpeza. "Antes, eles estragavam e depredavam porque não sentiam que a Guarda pertencia a eles", ressalta.
O foco do trabalho realizado na instituição é o primeiro emprego. Os adolescentes optam por um entre três cursos: auxiliar administrativo, auxiliar de padaria e auxiliar de supermercados. E são encaminhados para fazer a parte prática como aprendizes nas empresas da cidade. Cerca de 50% são efetivados após o programa.
Uma vez por semana, os jovens participam de oficinas artísticas, como música, teatro e artes plásticas. O que visivelmente melhora sua autoestima.
Para manter todas as atividades, a Guarda realiza um orçamento de cerca de R$ 50 mil mensais. Um terço vem da Prefeitura. O resto, dona Kimiko e sua equipe têm de buscar na sociedade com a realização de pelo menos um evento mensal.
Isso tudo dá muito trabalho. Mas, para a empresária, dá mais satisfação. Segundo ela, a preocupação com o outro está no DNA da família. "Minha avó já fazia trabalhos sociais no Japão", conta. Além disso, de acordo com dona Kimiko, essa é uma forma de retribuição encontrada por ela e o marido Atsushi. "A gente tem a preocupação de devolver à comunidade o que Deus tem nos abençoado."

Instituto dos Cegos
Olhando para a antiga foto de um grupo de adolescentes cujos estudos ajudou a financiar, o empresário Ary Sudan tem certeza de que vale a pena participar. Vale a pena investir tempo e dinheiro para apoiar quem mais precisa. Em 2000, as duas empresas de Sudan - Rondopar e Tamarana Metais - deram início ao projeto Bom Aluno em Londrina. A iniciativa, que atualmente conta com o apoio de outras oito empresas, atende 70 jovens e adolescentes carentes, bancando seus estudos até a universidade. Vários deles já se formaram e iniciam agora carreira como médicos, psicólogos, engenheiros, entre outros profissionais.
Mas a história do empresário com projetos sociais é mais antiga. Há 34 anos, ele participou de um grupo que ajudou a tirar do papel o Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos (Ilitc). Desde então, sempre esteve por perto da entidade, exercendo cargos de apoio ao ex-presidente e fundador, Roberto Miranda, que morreu no ano passado.
Com a falta do amigo, Sudan teve de assumir a presidência do instituto, que mudou de nome em homenagem ao fundador. "Todo homem tem obrigação de contribuir para um mundo melhor. Não vamos resolver tudo, mas aquilo que está ao nosso alcance", declara. É acreditando nisso que ele, ao menos uma vez por semana, deixa suas empresas e vai para a sede da entidade no Jardim Leonor (zona oeste). Pela primeira vez no comando, o empresário busca dar mais visibilidade a ela. "O Roberto Miranda, que sempre presidiu o instituto, tinha uma visão bem diferente da minha. Ele falava: ‘o que a mão direita dá, a outra não precisa saber’", declara.
Sudan pensa em sentido inverso. Quer abrir o instituto para a sociedade e receber mais apoio. "Temos um orçamento de R$ 100 mil. Somente 20% vêm da iniciativa privada e queremos ampliar esse valor", declara.
A maior parte dos recursos são destinados pelos governos municipal e estadual para pagar os 46 funcionários, quase todos professores das redes públicas lotados no instituto. A instituição tem 140 alunos em educação infantil, ensino fundamental e médio e ensino de jovens e adultos (EJA). "Difícil é fechar a conta do custeio", diz o presidente, que planeja estratégias para obter mais recursos.
"O que me move é a consciência, a necessidade de lutar para reduzir as desigualdades. Como uma pessoa que tem mais recursos, me sinto na obrigação de contribuir", declara. Questionado sobre como divide seu tempo, ele afirma não perceber quando deixa de fazer uma atividade empresarial e passa a exercer outra ligada aos projetos que apoia. "São coisas já incorporadas no meu dia a dia", explica.
Sudan ressalta a importância do Instituto Roberto Miranda. "Quando as pessoas veem um cego andando sozinho no calçadão, não imaginam o trabalho que existe por trás disso", declara. Além dos conteúdos escolares, os alunos aprendem na entidade a ter uma vida autônoma.

SERVIÇO
Interessados em ajudar as entidades devem entrar em contato pelos telefones (43) 3375-0531 (Guarda Mirim) e (43) 3327-4330 (Instituto Roberto Miranda)

Imagem ilustrativa da imagem Eles não conseguem ficar indiferentes
| Foto: Marcos Zanutto
"São meninos e meninas que têm grande riqueza dentro deles e só precisam de apoio para se realizar como pessoas de bem", diz Kimiko Yoshii, entre os alunos da Guarda Mirim
Imagem ilustrativa da imagem Eles não conseguem ficar indiferentes
| Foto: Gustavo Carneiro
Ary Sudan, presidente do Instituto Roberto Miranda: "O que me move é a consciência, a necessidade de lutar para reduzir as desigualdades"
mockup