''Antes, não tinha shopping e lugar para sair à noite em Curitiba. A turma vinha toda para cá. Quando abriu o (Shopping) Muller (1983), caiu o movimento. E, quando abriram os bingos, caiu de vez'', comenta Marco Antônio Pereira, proprietário da casa de sopas Acrótona desde 2004. Ele considera o seu restaurante um dos únicos estabelecimentos de ambiente familiar que funcionam à noite na Rua Cruz Machado.
Sobre o submundo da noite na rua que termina aos pés da catedral, Pereira diz que a relação é tranquila, num estilo ''eles lá e nós aqui''. Sobre a influência do ambiente em relação ao movimento de sua casa, avalia que é de 20 a 25%, pois a população fica com receio de ir à Rua Cruz Machado à noite. ''Até o secretário de Segurança do Paraná, o (Luiz Fernando) Delazari, falou que as ruas mais perigosas de Curitiba são a Saldanha Marinho e a Cruz Machado. E isso afeta o público. Um cliente chegou a falar: 'Se o secretário falou, existe'.'' A assessoria da secretaria não soube dizer se o secretário foi o responsável por tal afirmação.
Para o comerciante, a solução é fácil: bastaria uma viatura de polícia permanente na esquina próxima ao seu restaurante, o que, em sua opinião, acabaria com o uso e tráfico de drogas. ''Quanto à segurança, nós, em 36 anos, nunca fomos assaltados. Aqui, à noite, não tem roubos. A questão para eles é a droga, então, se assaltarem, vão prejudicar eles mesmos.''
A fala é reiterada por outro comerciante, que este repórter conversou sem se identificar como jornalista e, por isso, não cita o seu nome. ''Existe um universo de regras que todos que vivem da noite respeitam. Só se dá mal aqui quem vem de fora, que desconhece as regras e acaba fazendo bobagem.''
Há 18 anos trabalhando na Cruz Machado, Pereira, o dono da Acrótona, diz que os tempos mudaram. ''Aqui, o tráfico sempre existiu. Mas hoje é mais enrustido. Antes, era em toda a esquina. Era mais livre e, hoje, mais moderado.''
Apesar das dificuldades, entende que pior que a realidade é a fama que a rua tem. ''Uns falam que é a Boca do Lixo, outros que é ponto de tráfico. E nós sobressaímos a tudo. Criada em 1974, a nossa casa ficou. Esfriou, é fila direto.''
Depois do fechamento da casa, as sobras de sopa alimentam os moradores de rua e usuários de droga da Cruz Machado. ''No final da noite, damos uma sopa para o pessoal aqui. É tarde e eles estão com fome. Dá até dó.'' A partir disso, cria-se um vínculo. ''Eles ficam na deles, mas cuidam da casa também. Não importa o que eles fazem. E eles olham a casa para a gente.'' Mas Pereira pede que esperem na esquina, distante da frente do restaurante. ''Se um cliente me vê com uma dessas pessoas, não volta aqui. Pensa que eu estou envolvido com essa turma. Tenho que manter a distância. É aquela coisa: me diga com quem andas, que direi quem és'', diz. ''É um aviso que dou aos meus funcionários, pois a polícia também não vai saber diferenciar.'' (R.U.)
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