ELEIÇÕES - Curitiba é modelo em exclusão, diz Meirinho
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segunda-feira, 01 de setembro de 2008
Karla Losse Mendes e Rosiane Correia de Freitas<BR>Equipe da Folha 
FOLHA DE LONDRINA: Na sua opinião, qual o serviço mais eficiente da prefeitura e qual precisa de mais investimentos?
BRUNO MEIRINHO: A prefeitura tem um mecanismo de comunicação muito eficiente. Mas é uma comunicação cujo conteúdo é restrito.
FOLHA: O senhor se refere a comunicação institucional da prefeitura?
MEIRINHO: Sim, o 156. Não tenho problema de dizer, se ligo no 156 e digo que tem uma pessoa desmaiada. Já fiz isso. Já encontrei uma pessoa que estava na rua desassistida e chamei o 156. E eles de fato foram atenciosos. Achei que foi bastante eficiente. Mas, por exemplo, já consultei o 156 para saber outras informações mais importantes, questões fiscais e eles foram bastante eficientes para dizer que não sabiam. É um serviço público e que deveria fornecer informações públicas. São eficientes em se comunicar com você, mas acho que não dizem o que realmente importa.
FOLHA: Qual o serviço que mais precisa de investimentos?
MEIRINHO: O transporte público é muito pouco eficiente. Há um estudo do Dieese que mostra que o transporte público hoje é muito menos eficiente que há dez anos. Segundo o Dieese se o transporte público fosse eficiente a tarifa poderia ser de R$ 1,32. A tarifa é de R$ 1,90 porque o sistema está cada vez menos eficiente. E é curioso porque está mais caro e pior.
FOLHA: Na prática, o que significa essa idéia de socializar a riqueza de Curitiba?
MEIRINHO: Curitiba é uma cidade modelo em exclusão. Por quê? O planejamento da década de 1970 demarcou eixos estruturais em torno dos quais se concentraram os investimentos públicos e desenvolveu uma área nobre da cidade. Os eixos estruturais são aqueles compostos pela canaleta de ônibus e duas vias rápidas paralelas. São os trinários. Ao longo desses eixos você vê uma cidade modelo, desenvolvida, nobre. Mas fora dos eixos há uma área esquecida, empobrecida. Esse modelo de planejamento concentrou a riqueza.
Curitiba é a quarta cidade mais rica do país. O nosso PIB é de R$ 30 bilhões. Apesar disso Curitiba tem o 19º IDH, Índice de Desenvolvimento Humano. O PIB não correspondeu ao IDH. O PIB corresponde a violência. Curitiba é a quarta cidade mais violenta do país. Porque é uma cidade muito desigual, com uma população marginalizada que produzem nas suas relações sociais um ambiente violento, um ambiente de insegurança, de instabilidade social.
Acreditamos que a quarta cidade mais rica do país pode ter o quarto IDH. É preciso reduzir a desigualdade social. Outra questão que também demonstra isso é que aqui existem 40 mil famílias sem um lugar digno para morar. Ao mesmo tempo existem 60 mil imóveis vazios. Isso é um sinal de concentração de riqueza. Defendemos políticas que ataquem essa concentração de riquezas, fazendo com que elas sejam socializadas.
Como faremos isso? Não é simplesmente tomando esses imóveis. Mas é dizendo que um imóvel vazio não cumpre a sua função social e por isso pode ter seu IPTU elevado. Chama-se IPTU progressivo no tempo. O IPTU desse imóvel irá de 0,5% neste ano para 1% no próximo ano e 2% no seguinte. Isso desincentiva que os imóveis permaneçam vazios e faz com que eles sejam inseridos no mercado. Inserir 60 mil imóveis no mercado seria uma política deflacionária do mercado imobiliário contrária a atual tendência de elevação dos preços.
Outro dado, Curitiba tem um PIB de R$ 30 bilhões e um orçamento de R$ 3 bilhões. Isso significa que o orçamento é 10% do PIB. Os mais ricos podem contribuir mais. Os R$ 30 bilhões podem contribuir com R$ 6 bilhões, com R$ 7 bilhões. A receita da prefeitura pode aumentar de forma que ela possa investir mais de fato em educação, em saúde, em moradia e outras políticas sociais.
FOLHA: Então o senhor defende um aumento nos impostos?
MEIRINHO: Para os mais ricos, sim. Tem um mecanismo que é o IPTU progressivo conforme a renda e o valor do imóvel. Isso é uma política totalmente diferenciada. Os mais pobres de Curitiba pagam mais que os mais ricos.
Mas os proprietários dos imóveis na Linha Verde, que é o maior investimento da prefeitura, que custa R$ 200 milhões, não pagarão nada. Terão isenção de IPTU e não irão pagar contribuição de melhoria. É uma tradição de Curitiba isentar os mais ricos e tributar os mais pobres.
FOLHA: Qual será a sua prioridade na área da saúde?
MEIRINHO: Reduzir a burocracia. E investir nas pessoas. Porque hoje a prefeitura investe mais nos prédios que nas pessoas. E hoje o serviço é fornecido com muito heroísmo pelos servidores públicos municipais que recebem pouco, são pouco valorizados e tem poucos recursos ao seu alcance para atender melhor a população. Vamos investir em profissionais contratados diretamente pelo poder público. E reduzir as filas, a burocracia e atender mais as especialidades médicas. Hoje para você ter um atendimento de especialidade leva um ano. E ainda por cima é levado para um hospital privado. O atendimento está privatizado. Tem que ser totalmente público. É preciso socializar essa riqueza.
FOLHA: Como tornar o transporte público mais atraente para a população?
MEIRINHO: Para o ônibus ser mais atrativo tem que ser menos lotado. Outro ponto é subsidiar a tarifa. Fazer ela ser mais barata e progressivamente gratuita. Defendemos a tarifa zero. Essa política merece toda a atenção do poder público porque não é só uma política de transporte público, é de redução dos congestiomentos e política ambiental de redução da poluição e melhoria da qualidade do ar que nós respiramos.
FOLHA: O senhor pode detalhar mais a sua proposta de passe livre?
MEIRINHO: Se a gente for pensar que em Curitiba e região metropolitana existem 800 mil trabalhadores com carteira assinada a um custo mensal de transporte que está em torno de R$ 100,00, só isso significa R$ 80 milhões. Isso dá R$ 960 milhões por ano. Só com esse dinheiro nós já financiamos integralmente o transporte público. Acho que as empresas deveriam contribuir mais com esse transporte público, deveriam contribuir com um fundo do transporte público. Seria como um condomínio das pessoas jurídicas. Esse fundo subsidiaria o transporte para todos.
Vamos rever as planilhas de custo. Hoje a Urbs remunera as empresas por custos de ônibus da década de 1980. A nossa frota, como o próprio Beto Richa diz, é a frota mais moderna do país. Portanto ela gasta menos pneus, menos diesel e menos manutenção que na década de oitenta. Mas a prefeitura remunera as empresa com base nos custos da década de 1980 porque nunca atualizou as tabelas de custos. Isso reduziria a tarifa também.
FOLHA: Caso eleito, o senhor irá implantar o metrô? Qual o seu projeto nessa área?
MEIRINHO: Acreditamos que esse sistema hoje de transporte público é muito ineficiente. Substituir isso por uma grande obra de metrô é uma falsa solução. Acreditamos que a solução é mais simples. É o transporte ser mais atrativo, mais eficiente. Mas se houver a necessidade do metrô existem duas coisas importantes que devem ser consideradas. Uma delas é controle social de custo e programação desse metrô para não repetir o modelo de exclusão do sistema atual. O metrô tem que ser feito com a população para que eles digam onde interessa mais ter metrô. Tem que ser o mais democrático possível.
O outro detalhe é combater o superfaturamento. O importante é que sobre a obra do metrô não fiquem pairando interesses particulares de quem vai fazer. Eu acho, por exemplo, que o metrô poderia ser executado por uma empreiteira pública. Porque não é uma obra pontual. Em Curitiba tem obras o tempo todo. Acredito que ele pode ser estatizado porque o transporte público assim como a educação, a saúde, a moradia são direitos. E direitos não são mercadorias. Direitos não podem ser objeto do lucro das empresas.
FOLHA: Além de investir no transporte público, que outras propostas o senhor tem para diminuir os congestionamentos?
MEIRINHO: Acredito que investir em mecanismos alternativos, menos poluentes de mobilidade são formas de reduzir o trânsito. Hoje as ciclovias de Curitiba são na verdade calçadas por onde circulam bicicletas. Nós defendemos que sejam implantadas ciclofaixas exclusivas para a circulação de bicicletas e calçadas para os pedestres.
FOLHA: Caso eleito, o senhor concluirá a Linha Verde?
MEIRINHO: Não vou me propor a investir num projeto falido. A BR-116 historicamente dividiu a cidade em duas e a Linha Verde vai manter essa linha de segregação. Não é um mecanismo de integração. É um projeto inviável e eleitoreiro. Vamos fazer o debate popular para discutir isso aí.


