Walter Alfaite é um senhor de 88 anos que fala pouco e tem um olhar perdido, que vislumbra o infinito. Responde com calma respostas curtas. A entonação da voz, e alguma das frases, emulam as letras de canções imiginárias, como se cantasse enquanto fala. Se diz ''O samba está bem'', parece que canta ''O samba está bem'', em um fraseado que ultrapassa a capacidade de um interlocutor normal. É cantor a todo momento, não só no palco.
Cantor, aliás, que faz música desde a década de 60: foi amigo de Cartola, frequentou e se apresentou no clássico Zicartola; foi gravado por Paulinho da Viola em 1971 e por João Nogueira pouco depois; participou de vários projetos de samba conhecidos. Disco autoral, porém, só lançou em 1998, aos 78 anos.
A demora para estrear em disco fez com que Walter Alfaite fosse comparado com o Buena Vista Social Club, grupo de cantores e compositores da velha guarda cubana que só teve o reconhecimento devido depois da idade avançada. ''Já estive com o pessoal do Buena Vista no Rio. Tive o prazer de conversar com o Compay Segundo'', conta, referindo-se ao compositor cubano.
Para Walter Alfaite não foi demora em estrear em um disco seu: foi a hora certa, apenas. ''Se tivesse começado cedo, ninguém falaria mais de mim. Hoje, quem fala do Cauby Peixoto?'', indaga. Deixa transparecer: a culpa não é dele ou de Cauby, grandes artistas, é da indústria...
Se teve de esperar quase 80 anos para gravar um disco, o culpado não é ele. ''Na velha guarda, há muita gente boa. O ruim é que as vezes dão oportunidades medíocres pra eles. O que precisam é de oportunidade''. Se na frase transparece rancor, é má interpretação. Não há nenhum. Tanto é que Walter diz que gosta de todos os ritmos e, se der, dança todos. Até o famigerado funk carioca entra na seleção musical dele. ''A música de hoje está boa. O que está ruim são as letras''.
A idade já deu a Walter conhecimento bastante para não se preocupar ou ter pressa. Hoje ele só quer cantar samba e cortar seus ternos. E pode afirmar: ''Em se tratando de samba, qualquer tipo eu canto. No samba já fiz tudo. Já fui mestre-sala, diretor de harmonia. Já bati surdo, toco tamborim. Já dancei no pé. Sou um sambista completo'', avalia Alfaite, que todo ano sai na Portela e desfila na São Clemente.
Está na hora do show. No palco, Walter Alfaite conserva o mesmo olhar perdido - ou para o chão. A disposição é que muda. Walter canta, dança miudinho, faz piada de tudo, coloca a platéia bem feliz. Tudo com elegância, terno bem cortado, anéis nos dedos, colares no pescoço, sapato bem lustrado. A idade fica de lado. É grande. Força do samba. (T.A.)

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