Efemérides
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
''Para um pobre moço provinciano, ser jornalista pode ser um destino romântico, assim como um pobre moço da capital pode imaginar que é romântico o destino de um gaúcho ou de um peão da estância. Não me envergonho de ter querido ser jornalista, rotina que agora me parece trivial. Lembro de ter ouvido Ferréz Irala, meu colega, dizer que o jornalista escreve para o esquecimento e que seu desejo seria escrever para a memória e para o tempo'', escreveu Borges (2001, p. 26).
Minha escolha foi ocaso, não acaso - o que não pode deixar de ter sido também. O que se dizer das coisas que acontecem, senão lamentá-las ou aceitá-las com júbilo? Resultado de escolhas, de todas as efemérides comuns em minha profissão (comemorações de centenários, visitas de príncipes, datas históricas, nascimentos, feriados, meros anacronismos, previsíveis e cíclicos) a que me é mais comum, porém, é a morte. Não a escolhi - mas quem escolhe destino?
Diariamente faço obituários. Todos os dias são mortes que acontecem aos montes. Mortos que morrem em ângulos cambiantes, em meios distintos, em terrenos de geografias diferentes. Resultam todas, entanto, no mesmo fim e com semelhante terror no olhar: como o meu. - E o final é penumbra; e é também um cavalo que já vem, galopante pela estância.
Tento, com meus poucos recursos - elefante de pau -, dignificar um pouco a morte, já sabendo que esta é indigna e que meu esforço resultará inútil. Ah, minha parca tentativa, um esforço com palavras... suspiro que uns entendem, outros não. Escrevo para o esquecimento.
A mim me foi destinada a tarefa de contar mortes e a faço sem prazer mas com obstinação. Comparo a tarefa, para muitos tediosa, com a de quem vive em alguma vila nos balcãs e tem como objetivo limpar restos de carne em ossos de boi. São montantes de ossos que misturam pouca carne e restos de sangue. Um pouco parecido também com quem faz obituários em jornal, esta efeméride eterna. Mortos não sabem ler.
(Oh, que triste fim para um pobre moço do interior e pobre. Mas não lamento: esta é minha prentensão.)
* Borges, Jorge Luís. O livro de areia. São Paulo: Globo, 2001.


