Não foi por falta de espaço em solo para crescer que Londrina começou sua escalada em direção ao céu. Tanto que, em meados do século passado, embora sua expansão já excedesse os limites da área originalmente estabelecida pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), o crescimento horizontal prosseguia nas periferias. Mas o que os idealistas da ''capital do interior'' almejavam a imagem de modernidade e de metrópole não cabia mais na terra. Por isso nos anos 50 começaram a ser erguidos os primeiros altos edifícios da cidade, hoje multiplicados em centenas.
No decorrer da última semana, enquanto esta repórter percorria livros, arquivos e mentes vivas em busca das origens da Londrina vertical, o fotógrafo Eduardo Anizelli saía às ruas com um item a mais do que sua câmera: uma pasta contendo retratos da cidade em preto-e-branco, captados décadas antes dele nascer. Sua missão era transpor as imagens para os dias atuais, sob ângulos semelhantes aos antigos, compondo o famoso ''antes e depois'' dos cenários onde se desenvolveram os primeiros edifícios londrinenses. O resultado desse trabalho está nessas duas páginas.
As novas fotografias provam que o tempo não passou em vão. Em alguns casos, a mudança se deu apenas na visão que se tem dos prédios a partir de certos locais, com árvores mais altas e numerosas escondendo as construções. Em outros, as modificações atingiram diretamente os edifícios, sendo que parte deles foi simplesmente extinta. Um bom exemplo é o trecho da Avenida Paraná compreendido entre as ruas João Cândido e Pernambuco, no Centro. Num dos lados da via, que viria a ser parte do Calçadão, quase todas as construções foram substituídas. Até um prédio de cinco andares foi demolido, dando lugar a uma loja da rede Riachuelo.
''Demolia-se bastante naquela época, porque as técnicas iam avançando e as pessoas preferiam modernizar. No começo você tinha, por exemplo, um monte de colunas e vigas, pouco funcionais, que depois foram sendo reduzidas. E Londrina sempre acompanhou a evolução das técnicas internacionais'', afirma o engenheiro José Augusto Queiroz, 83 anos, um dos primeiros estruturistas da cidade, que tem em seu currículo mais de 100 edifícios londrinenses e obras como a Concha Acústica e a barragem do Lago Igapó. Atuando em Londrina desde 1948, Queiroz acompanhou a verticalização do município, um processo que se iniciou às vésperas de 1950 e avançou rapidamente.
Para o professor de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Humberto Yamaki, a construção de edifícios, à época, estava relacionada à afirmação de identidade. ''Num primeiro momento, em que a cidade ainda era compacta, a questão tinha mais uma carga simbólica. Falava-se muito em 'a maior estrutura de concreto, o prédio mais alto'. Depois os edifícios passam a ser encarados como uma opção viável de habitação'', explica.
O local escolhido para deslanchar a verticalização não podia ser outro senão a Avenida Paraná, ''centro nervoso'' da cidade, ponto onde se mesclava tudo que cheirasse ao ''Eldorado'' daqueles anos os negócios do café, o comércio emergente, as instituições bancárias, os bares mais badalados, o Cine Teatro Municipal. Quase 30 anos antes de se tornar o Calçadão, o que só aconteceria em 1977, a avenida concentrou a primeira leva de grandes prédios de Londrina. O mais antigo, segundo Queiroz, seria o Edifício Santo Antônio, localizado entre as ruas Pernambuco e Hugo Cabral, construído no final dos anos 40.
Ao Santo Antônio teriam se seguido, na Avenida Paraná, os edifícios Autolon (1951), na esquina com a Rua Minas Gerais; Sahão (1952), na esquina com a Avenida São Paulo; Monções (1953), ao lado do Cine Teatro Ouro Verde; e América (1957), na esquina com a Avenida Rio de Janeiro. Ainda na Região Central, foram construídos na mesma década os edifícios Bosque (1955) e Conjunto Centro Comercial (1955), ambos na Rua Piauí; Manella (1956), na Rua Maranhão; Tóquio, na Rua Sergipe (1957) e Alvorada (1957), na esquina da Avenida São Paulo com a Piauí.
Depois disso, segundo Yamaki, o crescimento vertical do município foi se intensificando a cada década, registrando um ''mini-boom'' de edifícios nos anos 60 e um ''boom'' em 1980. Este último precedeu uma fase de crise na construção civil, após a implementação da Lei de Zoneamento, superada no final da década passada. Atualmente, segundo os registros do setor de Imposto Sobre Serviços (ISS) da prefeitura, Londrina tem pelo menos 864 edifícios, entre residenciais, comerciais e mistos.

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