Edificações antigas mantêm vivas as raízes
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segunda-feira, 23 de julho de 2007
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
O povo brasileiro tem fama de não ter memória. A preservação da história não se faz apenas através de relatos, fotos, documentos. Passa também pela necessidade de conservação do patrimônio arquitetônico, que, por meio de traços, estilos, materiais e estruturas, mantém vivas as raízes de uma comunidade.
Apesar do ritmo voraz da modernização de metrópole, Curitiba ainda possui prédios construídos durante os 200 primeiros anos de existência da cidade, quando os delírios de ''Capital Modelo'' ainda estavam a décadas e décadas de distância de passar pela cabeça de algum marqueteiro.
A pedido da FOLHA, a Coordenadoria de Pesquisa Histórica da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) enviou uma relação de edificações antigas do município: as Ruínas de São Francisco, a Igreja da Ordem, a Casa Romário Martins, a Farmácia Stellfeld e o Palacete Wolf, todos localizados no chamado Centro Velho. Devido a imprecisões de documentação e datas, não é possível dizer com precisão que são os prédios mais antigos de Curitiba. Mas é certo que estão entre os remanescentes mais velhos do patrimônio arquitetônico da cidade.
A FCC aponta que a Igreja da Ordem é o prédio mais antigo de Curitiba. ''A igreja foi construída em 1737. Ela começou como uma capela dedicada à Nossa Senhora do Terço. Mais tarde, em 1746, foi fundada a Ordem Terceira, pelos padres franciscanos'', diz o Monsenhor Luiz de Gonzaga Gonçalves, atual reitor da Igreja da Ordem.
O religioso aponta que, ao longo dos séculos, o templo passou por importantes transformações: foi palco do culto das colônias polonesa e alemã, passou a ser o Centro da Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1883, tornou-se Templo de Adoração Perpétua em 1951 e mais recentemente passou a abrigar o Museu de Arte Sacra. O Cenáculo Arquidiocesano, antigo sonho da comunidade, deve ser finalmente concluído em agosto. Nos intervalos entre esses acontecimentos, a igreja foi reformada e restaurada.
Monsenhor Luiz se diz orgulhoso da sua contribuição à Igreja da Ordem, onde atua desde o início da década passada. ''Sou de Jaboticabal (SP) e vim para Curitiba porque meu irmão era bispo auxiliar. Fiquei 'amarrado' à cidade. Fui a princípio pároco na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, no Tarumã, e depois vim para a Igreja da Ordem. Não é uma pastoral fácil, ela exige mais dos fiéis. Aqui, vi tantos testemunhos de leigos sobre sua fé que acabei crescendo muito também'', explica.
Evanira Lima dos Santos, responsável pela Casa Romário Martins, localizada em frente à Igreja da Ordem, salienta que a manutenção de prédios centenários exige cuidado. ''A Casa está com algumas rachaduras, e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) está analisando a possibilidade de uma reforma. Desde 1973, quando ocorreu uma grande restauração, não foi feita nenhuma grande mudança no prédio'', diz Evanira. Segundo a responsável, a Casa Romário Martins, que já abrigou um armazém de secos e molhados, é o segundo prédio mais antigo de Curitiba.
Utilizada desde 1973 como espaço cultural pela FCC, atualmente a edificação recebe uma exposição da Casa da Memória com fotos e informações de prédios remanescentes históricos e de outros já demolidos do Centro Velho. A casa centenária tem uma tradição de acolher a memória curitibana. ''Na década de 1970, foi feito um trabalho com a comunidade, em que a população trazia fotos, documentos e outros materiais, e a Casa Romário Martins acabou se tornando o acervo histórico, que depois foi para a Casa da Memória'', afirma a monitora Francieli Ramos Pedroso.
Existe um gosto especial em trabalhar dentro de um prédio histórico? A equipe das divisões de leitura da FCC, que ocupam o Palacete Wolf, garante que sim. ''Tanto aqui quanto no Solar do Barão, onde estávamos antes, é muito interessante a sensação de estar numa casa centenária. Você fica imaginando que acontecimentos importantes ocorreram ali, quem morou e trabalhou naquele lugar'', comenta Patrícia Wohlke, chefe da Divisão de Bibliotecas da FCC.


