Edgar Morin insiste na luta pelo improvável
Agência Estado
As vantagens e desvantagens, as ameaças, riscos e chances que poderão marcar a aventura da Humanidade no novo século estão no centro dos estudos de Edgar Morin, o mestre das Ciências Humanas e Sociais na França.
Agência Estado Se o senhor interpela a História, a Geografia, a política, a Ciência, a Filosofia tentando antever sinais de novas ameaças para a Humanidade nesta virada do século?
Edgar Morin As ameaças são conhecidas, mesmo se não estão presentes na consciência de todos. A primeira ameaça, que encerra potencialmente a morte da Humanidade, é a nuclear, se uma guerra se desencadeasse. Temos a ameaça ecológica, da degradação da biosfera que o progresso científico e tecnológico agrava. Agora, novas ameaças surgem no desenvolvimento da inteligência artificial, suscetível não apenas de parasitar mas também de subjugar, dominar os seres humanos.
AE O Século 21 será mais honesto e ético?
Morin Em nenhum século o capitalismo vai se dar limites éticos. É ele que deve recebê-los. No próximo século, espero que se desenvolva a idéia da empresa cidadã, surgida nos Estados Unidos, mas ainda marginal dentro do capitalismo. Certos grupos empresariais já fixaram limites éticos para suas atividades. Eles tendem, de início, a atrair a clientela mais alerta, e isso logo terá inevitável efeito de contaminação no conjunto da sociedade.
AE Quais seriam as chances e o risco do Brasil no Século 21?
Morin O risco do Brasil tem duas vertentes: a primeira representada pelo problema de São Paulo, cidade que possui todos os defeitos de uma civilização hiperdesenvolvida (poluição, engarrafamento, anonimato, estresse etc). Na segunda, você se depara com o Nordeste rural, resto de um mundo arcaico, sujeito à dominação feudal. Permito-me acrescentar um outro problema que me toca profundamente o dos índios. Como tratar, a um tempo só, de tantos problemas cruciais em níveis diferentes? O risco do Brasil, enfim, é o de se ver acuado em suas contradições internas e cair numa crise muito grave, talvez sem precedente em sua história.
AE O que significa, afinal, a virada do século para o humanista Edgar Morin?
Morin Não sou nem otimista nem pessimista. Trata-se de uma aventura aleatória, incerta, mas sei o que quero vou continuar a agir, a resistir às ameaças das barbáries novas e antigas. Minha esperança nisso se limita ao improvável, porque é improvável, pelo que se vê no mundo de hoje, que se possa salvar a Humanidade, fazê-la progredir moralmente. Assim, como já lutei contra o Nazismo e mais tarde contra o Stalinismo, tudo o que me resta a fazer é progredir meu combate sem estar seguro da vitória.





