André Amorim
Equipe da Folha
A importância dos rios de uma cidade vai além das questões ligadas ao meio ambiente e ao abastecimento. Eles fazem parte da história política e da cultura de uma localidade. Basta pensar de Londres, por exemplo, que logo nos vem à mente o Rio Tâmisa, envolto em sua densa neblina. Em Paris, nos deixamos levar pelas fantasias românticas à beira do Sena. Isso sem falar no Nilo, que tornou possível florescer a civilização egípcia, e no Tietê, que acabou por se tornar o anti cartão-postal de São Paulo.
  As divisões territoriais geralmente são feitas por rios, que delimitam as fronteiras entre estados e países. Não por acaso, Curitiba nasceu entre dois rios, o Ivo e o Belém, que cruzam o centro da cidade. O município hoje é delimitado pelos rios Barigüi e Passaúna a oeste, e Atuba e Iguaçu a Leste. Ele é constituído por seis bacias hidrográficas que levam o nome do seus principais rios: Passaúna, Barigüi, Atuba, Iguaçu, Belém e Ribeirão dos Padilhas. Esses dois últimos poderiam ser condiderados totalmente curitibanos, pois nascem e morrem dentro do município.
  Assim como os demais rios da cidade, o Belém corre na direção norte-sul. Sua nascente está localizada no Bairro Cachoeira, protegida por um pequeno parque municipal.
O Ribeirão dos Padilhas nasce no bairro Capão Raso e deságua no Iguaçu, ele é considerado um dos mais comprometidos de Curitiba devido à alta densidade populacional existente ao longo dos seus
10,2 quilômetros de extensão.
  Os demais rios que compõem as bacias curitibanas nascem nos municípios da região metropolitana. O Passaúna e o Barigüi nascem em Almirante Tamandaré, enquanto o Atuba nasce em Colombo. O Iguaçu nasce do encontro dos rios Atuba e Iraí. Ele é considerado o rio dos três municípios, porque tem seu início entre os municípios de Curitiba, Pinhais e São José dos Pinhais. Na sua nascente, ele divide três países: Brasil, Paraguai e Argentina.
  De acordo com o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), órgão responsável pelo monitoramento da qualidade das águas fluviais paranaenses, os rios localizados à margem direita do Rio Iguaçu, como o Belém, Palmital, Atuba, são os mais afetados pela poluição. Os rios da margem esquerda, como Itaqui, Pequeno e Piraquara, têm qualidade de água medianamente poluída. Percebe-se que os rios mais poluídos coincidem com o maior adensamento urbana em suas áreas de drenagem.
  De acordo com a coordenadora técnica de recursos hídricos da Prefeitura de Curitiba, Cláudia Regina Boscardin, a contribuição do esgoto doméstico é o maior problema para a qualidade da água. Em alguns trechos urbanos mais antigos, como no caso do Belém quando cruza o Centro de Curitiba, esse tipo de ligação ainda é encontrada com freqüência. A ocupação irregular das margens dos rios também contribui para a sua deterioração.
A derrubada da mata ciliar que protege os leitos d’água gera erosão, que leva sedimentos para a água provocando o assoreamento e dificultando a vazão. Outro fator degradante é a impermeabilização das cidades pelo asfalto e concreto. Com isso, a água da chuva, ao correr em direção aos rios, leva com ela toda sujeira que encontra pelo caminho.
  O saldo desse desrespeito pode ser medido pelo volume de lixo que a equipe Olho D’água, da Prefeitura de Curitiba, retira dos rios do município. Diariamente é coletada cerca de uma tonelada de rejeitos sólidos.

Seguindo o Belém
  Segundo a coordenadora técnica de recursos hídricos da Prefeitura de Curitiba, Cláudia Regina Boscardin, a bacia do Rio Belém pode ser considerada a mais urbana de Curitiba. Essa característica faz dela também uma das mais comprometidas. Pode-se dizer que o rio já nasce poluído.
  Apesar de ter sua nascente protegida pelo Parque das Nascentes, no bairro Cachoeira, a qualidade da água que brota dali não é das melhores. Esse fato se deve a uma ocupação irregular que existe nas proximidades, onde a rede de esgoto da Sanepar ainda não chegou. Um cemitério particular localizado bem ao lado do parque também poderia contribuir com a poluição. ‘‘Em tese é para o cemitério controlar a emissão de chorume, que pode contaminar o lençol freático’’, explica Boscardin.
  Nesse ponto, o Belém ainda é um pequeno córrego, com água transparente e sem cheiro. Apesar da boa aparência do rio, a estudante Camila Cristina de Oliveira, 17 anos, que mora em frente a esse trecho, não arrisca beber essa água. ‘‘A gente considera como uma valeta’’, diz ela.
  Um pouco a frente, o rio ganha volume e começa a apresentar um cheiro desagradável. Próximo ao colégio onde Camila estuda, no bairro Barreirinha, já é possível encontrar alguns sacos de lixo jogados em seu leito. Em tempos de muita chuva, ele sobe e invade as residências próximas, como a da dona-de-casa Joana Monteiro, que conta da última enchente, quando a água chegou a meio metro de altura. Segundo a moradora, muitas pessoas ali usam o rio como uma grande lixeira, onde jogam todo tipo de material. ‘‘Esgoto eles não jogam, mas o resto ninguém respeita’’, afirma.
  Cerca de 300 metros a frente, o odor que vem do rio denuncia a emissão de material orgânico irregular. O lixo começa a se tornar uma constante em seu leito e em muitos pontos podemos conferir ligações clandestinas de esgoto, que despejam seu conteúdo diretamente na água.
  De acordo com o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que juntamente com a Suderhsa monitora a qualidade da água dos rios paranaenses, o rio Belém apresenta níveis de poluição já no primeiro ponto de monitoramento, próximo à sua foz. Segundo o órgão, a qualidade da água piora significativamente quando ele drena áreas mais densamente urbanizadas.
  No Parque São Lourenço, parte da água do Belém é retida em um lago para minimizar o perigo de enchentes. Depois disso ele sofre um processo de retificação, seu leito passa a ser delimitado por uma estrutura de concreto, atravessando o Bairro Centro Cívico, no Bosque João Paulo II, até ser canalizado em uma galeria subterrânea. Nesse trajeto ele recebe contribuições de vários afluentes que estão totalmente canalisados, passa por baixo da Avenida Mariano Torres, no Centro da cidade e reaparece novamente próximo à rodoferroviária de Curitiba.
  Após cruzar a cidade de norte a sul em um trajeto de 17,13 quilômetros, o Belém encontra o Rio Iguaçu no bairro do Boqueirão, próximo a uma Estação de Tratamento de Esgoto da Sanepar. (A.A.)

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