Assim aconteceu, por exemplo, com José Carlos Ribeiro de Jesus, o ‘‘Saqueiro’’, paranaense de Jacarezinho. Ele entrou na Folha em 3 de março de 1962, aos 13 anos, para levar o jornal às casas dos assinantes, de madrugada e de manhã. À tarde voltava ao jornal, para aprender a lidar na linotipo. ‘‘Linotipo era o computador’’, comenta, salientando como aquela máquina de compor fora um avanço tecnológico na época. ‘‘E a gente aprendia de graça’’.
A especialização dos linotipistas confirma uma observação de José Carlos: eles eram a elite do jornal. Com um ano e meio a dois anos de casa, José Carlos passou a ser membro do seleto grupo. No começo, cobrindo férias, até ser efetivado.Dorico da SilvaOutro ladoZé Carlos: linotipistas eram da elite
Os linotipistas tinham consciência de sua posição e alardeavam isso. Como deixa claro notícia publicava na FL nos anos 60, em uma das páginas do noticiário esportivo amador: ‘‘Linotipistas da Folha marcaram fácil vitória contra o resto’’ O ‘‘resto’’ era um time misto de outros departamentos do jornal... Foi de fato uma vitória fácil: 6 x 3, com 4 gols de Reinaldinho. Moisés fez o quinto gol; Nezinho completou o placar, marcando contra. Do ‘‘resto’’ os gols foram marcados por Ivo (1), Zé Fernandes (1) e Boralli (1).
A escalação dos craques foi a seguinte: Bonzo, Chapadão, Nelson Pereira (depois Natanael), Mané e Zé Carlos; Nenê e Moisés (Adelson); Otacílio, Reinaldinho, Coutinho e Ari. O time do ‘‘resto’’: Irarinha (Pítia), Nelson Valério (Reinaldo-Álvaro), Ivo, Delfino (Nezinho) e Nando; Neguinho e Edgar; Zé Fernandes, Moacir, Boralli e Nelson Severino.
No ambiente da Oficina o ar era abafado e muito quente, devido à caldeira principal e às caldeirinhas das linotipos. Não tinha ar-condicionado. José Carlos recorda: ‘‘Muitas vezes a gente trabalhava só de camisa. Alguns trabalhavam apenas de cuecas. Todas as nove linotipos tinham caldeira. Já pensou tudo ligado? Era um calor desgraçado.’’ Como o pessoal trabalhava à vontade, se tivesse alguma visita, alguém do jornal chegava primeiro, pra avisar e a moçada recompor-se.
Fora dali, o pessoal gostava de andar bem trajado, quase sempre de terno. Bugrão usava terno até quando estava trabalhando na caldeira! Embora a equipe pudesse trabalhar à vontade, o Patrão estava sempre de olho, porque era comum alguém escapulir durante o expediente. O Patrão ficava na Oficina, sentado, vigiando. Se alguém não vinha na hora e era indispensável naquele momento, o Patrão subia no jipe (único carro do jornal, então) e ia atrás do faltoso.
‘‘Naquele tempo funcionário fazia falta. Eu mesmo não conseguia tirar férias. Vim a tirar férias quando o jornal passou a frio’’, recorda José Carlos. (NR: composição a frio, isto é, no computador, quando o sistema off-set foi implantado, em 1969. Usava-se uma máquina componedora IBM que passava os textos da Redação para uma fita perfurada, que seria depois ‘‘traduzida’’ na Pré-Impressão, onde o material escrito, junto com as fotografias, era transferido para as folhas de zinco que seriam as matrizes da impressão. Mas, apesar da revolução tecnológica, em 88 o jornal ainda usava parte da composição a quente).

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