É uma vida, e começaria tudo de novo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Patrícia Zanin 
Apesar de criado no Paraná, a paciência e a calma no falar não enganam: ele é mineiro. O jornalista Carlos da Silva, 65 anos, 38 deles vividos na Folha, nasceu em Jacuí (Sul de Minas) e parece ter herdado de lá o jeito maneiro e mineiro de se expressar. Mas quem o conhece daqueles velhos tempos diz que nem sempre foi assim. Ele era arrogante, era jornalista demais. Brigava por qualquer coisa e até mesmo abusava de sua autoridade, entrega o ex-diretor de Redação, jornalista Walmor Maccarini.
Walmor conta um episódio em que Carlos se insurgiu contra o diretor de Redação Nilson Rímoli. Estávamos jantando na zona e a conta veio alta. O Nilson disse que aquilo era um abuso, uma exploração. Todos concordamos, menos o Carlos. Ele falou para o Nilson que aquilo que ele havia dito era juridicamente um crime, recorda. Foi um rebu. Quase seis meses para consertar o mal entendido. Dorico da SilvaAqui nãoCarlos da Silva: seis meses para consertar rebu
Walmor também reforça a fama de galã de Carlos. Ele era um conquistador, um boêmio e cantava todas as mulheres, relata. Ele, Carlos e Oswaldo Militão moravam no mesmo prédio, apelidado de treme-treme. A gente fazia festa com a mulherada, admite Carlos. Ele assume também sua fama de mau daquela época. Era muito agitado, muito pretensioso, qualquer coisa eu estava brigando, mas amadureci, garante.
Assunto recorrente nas conversas de Carlos e em suas crônicas semanais, as mulheres (sempre as mulheres!) não só lhe fizeram perder a paciência - Se existia algo que me tirava do sério era atraso de namorada - mas também a ganhar pontos no emprego. Ele conta uma história do dia em que passou pelo jornal para esperar uma namorada e o radiotelegrafista estava captando notícias através de Código Morse. Carlos traduziu e lá estava a notícia da queda do ditador da Venezuela, Marcos Perez Gimenez. Demos na primeira página e furamos todos os jornais, relata. Aquela época era uma efervescência, recorda.
Outra mãozinha das mulheres partiu da própria esposa, Halyna, falecida em 1995. Na conquista espacial do russo Yuri Gagarin, em 1961, Carlos contou com a ajuda da mulher, de origem russa. Parecia que a gente participava ativamente da realidade, relata. Ele sintonizava a Rádio Moscou e a esposa traduzia a cobertura. Depois, Carlos usava o material na Folha.
Carlos iniciou a carreira no rádio, em 1951, aos 17 anos. É minha outra paixão, revela. Trabalhava como produtor e locutor na Rádio Difusora de Jacarezinho. Mas desde pequeno eu simulava transmissão com meus irmãos no porão de casa usando lata de massa de tomate e barbante, conta. Ele trabalhou na Rádio Tupi, em São Paulo, mas só precisou voltar ao Paraná por causa do serviço militar. Em 1952, veio a Londrina cobrar uma duplicata e foi convidado para dar uma palinha na Rádio Londrina. Fui contratado ganhando o triplo, recorda.
Depois, ele passou a atuar no Paraná Jornal com Nilson Rímoli. Rímoli foi para a Folha e levou Carlos, ainda em 1952. Ele foi um grande mestre, um excelente professor, destaca o jornalista, que também não esquece das discussões.
Rímoli era perfeccionista. Sem saber, um dia ele chegou a corrigir texto de Ruy Barbosa, conta Carlos. Ele lia e mandava refazer. Um dia passei um texto assinado por um tal Charlie Jungell e ele aceitou sem reclamar.
Carlos também não esquece a cobertura da inauguração da Ponte da Amizade, ligando Brasil e Paraguai, pelo presidente Juscelino Kubitschek. Escalado para fazer a reportagem, ele viajou em avião fretado pela Folha e voltou afoito para a Redação. Fez o texto, mas Nilson pediu para Militão redatilografar. Fiquei puto, conta o jornalista que, no dia seguinte, pegou O Estado de São Paulo e mostrou a Nilson Rimoli. A abertura que o diretor de Redação havia mudado do texto de Carlos da Silva era a que tinha sido publicada no Estadão. O Nilson nem se importou e me disse: Tranquilize-se. Você trabalha na Folha e não no Estado de São Paulo.
Carlos fez de tudo na Folha. Até horóscopo. Naquela época havia um revezamento, revela. Gostava de ser repórter policial e dessa experiência lembra de uma cena digna de filme. Foi cobrir a prisão de um receptador que morava num sítio, mas na hora H teve receio de levar um tiro. Morri de medo e me escondi no paiol, acompanhado de dois policiais. Eu sentia que havia algo errado lá dentro, mas não quis falar nada. Foi quando alguém mais inteligente do que eu também percebeu. O acusado estava lá dentro, conosco, e acabou preso, diverte-se.
Atualmente, Carlos da Silva é redator da coluna O leitor escreve. Tenho prazer em lapidar o texto, conta ele, que critica, portanto, o jornalismo de gabinete. Eu me preocupo porque estou de saída. Minha aposentadoria, chegando, eu saio, mas muitos ficarão, diz. Mas reflete: Tudo isso é uma vida e eu começaria tudo de novo. Mas como seria esse novo começo? Essa é uma resposta para Alfredo, seu principal personagem.


