É preciso respeitar o colega
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de janeiro de 2017
Tatiane Salvatico<br>Especial para a FOLHA 

A ridicularização de uma característica física, da personalidade ou até do gosto pessoal de alguém. Ou ainda receber um apelido, ser alvo de repetidas chacotas e até de brincadeiras agressivas já foi visto como algo natural ao universo escolar, hoje em dia isso tem um nome bastante conhecido, bullying. Para combater a prática que pode causar danos graves à vida da criança ou do adolescente, educadores e familiares buscam cada vez mais formas de prevenir e combater o problema.
O psicólogo clínico Fernando Koga destaca a importância das escolas se prepararem para o enfrentamento do bullying, mas admite que o assunto é bastante delicado. Em comum, destaca ele, vítimas e agressores têm autoestima baixa. "Uma criança que pratica na escola a depreciação do colega de classe pode, inclusive, estar reproduzindo um comportamento que sofre em casa. Ele pode ser vítima de ridicularização dos pais ou irmãos e sem saber lidar com isso, reproduz em sala de aula. É uma forma, também, de pedir ajuda, de ser percebido por outra pessoa."
O psicólogo afirma que o combate à prática é um trabalho constante e incansável, por isso, sugere que a escola tenha programas de prevenção, enfrentamento e conscientização. Porém, se a prática fizer parte da vida da criança em outros ambientes, ela é ainda mais difícil de ser combatida. "Sabemos que quando os pais são chamados pela escola para conversa, cada um reage de uma forma. Há aqueles que imediatamente querem que seus filhos mudem de atitude, aqueles que acham que o filho agredir o amigo é uma forma dele se defender. Existem ainda pais que até têm o discurso de que a prática não está certa, que vão conversar com os filhos. Mas do que adianta se esses mesmo pais maltratam e humilham funcionários ou qualquer outra pessoa? É a ação dele que vai valer como exemplo para a criança", alerta.
Segundo a diretora educacional, Ieda Terra Alves Gomes, do Colégio Londrinense, a conscientização de que o bullying é uma prática discriminatória começa já na Educação Infantil e se estende pelos ciclos posteriores. Os alunos são alertados de que a prática causa danos profundos e, portanto, não é aceita pela instituição de ensino nem pela sociedade.
A escola conta inclusive com disciplinas que contemplam o tema. "Além de instruirmos nosso corpo docente para detectar qualquer problema dessa natureza, trabalhamos a aceitação e o amor ao próximo por meio de disciplinas como Formação Cristã. Princípios como ética e cidadania também são trabalhados em projetos especiais e em discussões transversais nas demais disciplinas".
O treinamento dos professores com discussões sobre formas de prevenir o bullying no ambiente escolar também ocorre na Maple Bear Canadian School. A diretora Andrea Pizaia Ornella destaca, entre os pontos discutidos, as características das crianças mais propensas a serem vítimas de bullying e as das que costumam disseminar a prática. "É difícil encontrar essa fórmula, mas crianças mais tímidas, com problema de comunicação, tendem a ser alvos mais fáceis. Em contrapartida, as mais impositivas podem ser mais propensas a praticar o bullying. É importante para os professores reconhecerem isso para identificar e combater o problema logo no início."
O cuidado deve ser constante, alerta ela. Entre as práticas adotadas pela escola, Andrea cita discussões sobre a diversidade humana, exercícios para que as crianças consigam se colocar no lugar de outra pessoa e o reconhecimento de suas próprias características físicas e psicológicas. "No ano passado, uma menina ouviu de uma colega que ela seria feia porque seu cabelo era cacheado. Na mesma hora, a professora explicou para as duas que ninguém ali era feia, que elas só tinham características físicas diferentes e que isso era muito legal. Isso motivou uma discussão em sala de aula para que cada aluno entendesse porque é do jeito que é. Oh que legal. Eu tenho o cabelo cacheado porque da mamãe também é assim. Eu a amo e sou igual a ela."


