Há 20 anos trabalhando a temática de relações de gênero com enfoque no estudo de mulheres, a assistente social Cássia Maria Carloto, professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pós-doutoranda na área de gênero, família e políticas públicas, entende que é preciso ''desnaturalizar'' o ser homem e mulher. ''Quem disse que menino tem que brincar de carrinho e menina de boneca? Esses valores são determinados pela sociedade'', afirma, contrapondo-se às pesquisas.
Ela acredita que a naturalização dos papéis e das relações de gênero faz parte da ideologia que tenta fazer crer que esta realidade é fruto da biologia, de uma essência masculina e feminina. ''Há diferenças físicas, biológicas, hormonais, cerebrais, mas há um linha muito tênue entre essas linhas biológicas''.
Segundo a professora, homens e mulheres na relação entre si e com a natureza, vão transformando as relações sociais e que essas diferenças vão sendo dadas ao longo dos anos. Os indivíduos vão se construindo a partir do momento em que são gerados. ''Depois que nascem, a sociedade vai transmitindo valores (modelos de pensar, de se comportar) dentro dos padrões masculino e feminino. Isso tudo vai sendo introjetado na criança'', diz.
Sendo a cultura muito forte para introjetar esses valores, surgem os comportamentos machistas e feministas. ''O que foge disso é visto como diferente e essa diferença se transforma em desigualdade, que desqualifica o indivíduo''.
A partir dessa desigualdade entra a relação de dominação e de opressão vivida há tantos anos. ''A sociedade é muito autoritária no mundo e precisa exercer o seu poder sobre as pessoas. As diferenças e as escolhas de cada um são completamente desconsiderados''.
A professora salienta a necessidade de respeitar as características de cada indivíduo. ''Se uma menina entra numa loja e procura um brinquedo considerado masculino, logo é repreendida pelos pais. Nem todos os meninos gostam de carrinho e nem todas as meninas, de boneca. Eles podem ter gostos diferenciados e nem por isso sofrer influência considerada negativa em sua formação. Cada indivíduo é um ser, e precisa ser respeitado''.
Para Cássia, essa relação de opressão só poderá ser transformada a partir de dois grandes eixos: através de uma profunda mudança cultural aliada a uma profunda mudança na esfera política. ''Não adianta apenas mexer na desigualdade econômica se não se mexer na cultural. E isso é um processo que leva tempo'', conclui. Enquanto a transformação não acontece, vamos convivendo com as diferenças.(M.O)

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