É filme que não acaba mais
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de julho de 2008
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
No escritório do pastor Roberto Amorim, vice-presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular no Brasil, não faltam referências ao cinema mundial. Imagens do Gordo e o Magro, Batman, Betty Boop, Homem Aranha, Búfalo Bill, Gene Autry e diversos personagens da Disney dividem espaço com réplicas em miniatura da estatueta do Oscar. Entre a tumultuada vida profissional que leva, comandando 13 mil templos e 50 mil pastores em todo o País, Amorim possui um hobby para se distrair e relaxar. Ele possui mais de 12 mil títulos de filmes, grande parte realizados nas décadas de 30, 40 e 50, a chamada Era de Ouro de Hollywood. Para efeito de comparação, uma locadora de grande porte em Curitiba possui aproximadamente 10 mil títulos.
A paixão começou na infância, quando o pastor colecionava revistas em quadrinhos. Eram malas de gibis que ele e seus colegas trocavam e guardavam com muito cuidado. Conforme foi se tornando adulto, a paixão migrou para os filmes. Ele chegou a construir um sobrado nos fundos de sua casa para brigar todos os títulos.
Pela primeira vez Amorim abre sua coleção para a imprensa e apresenta filmes raros que encontrou em diversas partes do mundo.
Folha de Londrina - A sua paixão pelo cinema vem desde a infância?
Roberto Amorim - Quando moleque eu frequentava o Cine Morguenau, no bairro Cristo Rei. Lá funcionava o que a gente chamava de ''cinema poeira''. Após a exibição dos filmes, que geralmente eram faroestes ou comédias, passava um seriado. Durante 15 semanas seguidas os episódios eram exibidos. Quando o capítulo acabava, um perigo eminente ficava em aberto. Sempre quando o bandido aparecia, a gente vaiava. Quando o mocinho chegava a gente batia o pé no chão, que era de madeira. Por isso chamávamos de ''cinema poeira''.
Quantos filmes você assiste por semana?
Hoje não tenho muito tempo. Assisto mais seriado pois é rápido. Quando estou de férias vejo muito. Em especial gosto dos faroestes e dos filmes do Tarzan. Tenho inclusive um filme na qual o Tarzan é indiano.
Com a transição do VHS para o DVD você perdeu muitos títulos?
Passei todos os meus 6 mil VHS para DVD.
Como faz para conseguir tantas raridades?
Eu viajo muito. Todos os anos vou para o exterior. Nos Estados Unidos acho muita coisa. Na última viagem entrei em uma lojinha e encontrei um filme que procurava há anos. Também achei um do Tarzan feito em 1918. Procurei minha vida inteira por um faroeste que vi na infância, chamado ''Domingo Sangrento''. Quando achei nem acreditei. Também gosto de imagens de personagens do cinema. Quando vejo não quero nem saber, compro mesmo.
Os colecionadores de filmes no Brasil se comunicam bastante?
Tem até ministro da República colecionador que acorda de madrugada pra ver os episódios dá antiga série ''Flash Gordon''. É uma grande tribo em todo o País. Temos muito contato, pois existe troca e venda de material entre nós. Tem até uma revista editada por um colecionador com artigos de especialistas. Existem médicos, advogados, engenheiros e muitos outros que colecionam filmes. Sessões de cinema são realizadas em São Paulo apenas para os fãs do faroeste. Eles chegam a ir fantasiados.
O que você gosta de assistir?
Cinema é entretenimento. É uma fábrica de ilusões. Tem que ver para se divertir. Por isso tem muita coisa que não vejo. Nunca gostei de ''Cidadão Kane'', considerado o melhor filme de todos os tempos. Isso é papo de falso intelectual. Eles não entendem a mensagem do filme mas já que os outros dizem que é bom acabam tendo a mesma opinião. O cinema do Michelangelo Antonioni e do Glauber Rocha também não me atrai. Gosto de filmes do Elia Kazan, Anthoni Mann, Billy Wilder, David Lynch e de filmes como ''Ben-Hur'', ''Os 10 Mandamentos'' e ''Casablanca''. Gosto até de Indiana Jones. Este último não é bom, mas considero ''Indiana Jones e o Templo da Perdição'' um dos 10 melhores filmes já feitos. Também aprecio os filmes do John Ford.
E quais seus atores prediletos?
São muitos. Alguns deles são Ava Gardner, Marilyn Monroe, Katharine Hepburn, Bette Davis, Nastassja Kinski, Vivien Leigh, Michelle Pfeiffer, Meryl Streep, Errol Flynn, Burt Lancaster, Clark Gable, Henri Fonda, Robert Taylor. Do John Waine, por exemplo, tenho 160 filmes.
Sobre o cinema nacional, quais as raridades que possui?
Tenhos filmes com a Dercy Gonçalves e com o Oscarito que não existem mais, pois os originais sumiram. Sou muito amigo do Dedé, dos Trapalhões. Um dia ele veio aqui em casa e ficou surpreso quando viu que eu possuía um filme dos Trapalhões que nem ele tem.
No Brasil é fácil achar filmes raros?
Em São Paulo sim. Curitiba é chamada de cidade universitária e européia mas tudo que precisamos de cultura temos que ir pra São Paulo. Vou para lá todo mês. Volto com 30 DVDs em média. Mas tem coisa que só acho fora do País. Encontrei um filme do John Waine na China. Tem uma loja em Curitiba muito legal. É a Zeppelin, na Comendador Araújo, 180. Lá os colecionadores se reúnem e podemos fazer encomendas de filmes raros.
Você é o maior colecionador de filmes do País?
Não. No interior do Rio de Janeiro possui um colecionador com mais de 30 mil títulos.
Sua coleção está aberta para pesquisa?
Não empresto os filmes de jeito nenhum. Mas possuo uma vasta biblioteca sobre cinema. Os livros estão disponíveis para consulta.
Como você considera o cinema atual?
Os filmes antigos ficavam na nossa memória. Até a música a gente gravava. Hoje é tudo muito rápido. Ontem estava assistindo um seriado na televisão e quando terminou não lembrava que já tinha visto aquele episódio. Antigamente os filmes realmente tinham um valor cultural. Os filmes modernos são baseados em efeitos especiais. A arte não é mais direcionada ao artista. Em um filme como ''300'', por exemplo, quase todos os cenários não existem. Em ''Os 10 Mandamentos'' o diretor Cecil B. DeMille colocou milhões de pessoas nas filmagens.
Se você fosse obrigado a doar toda a sua coleção e pudesse ficar com apenas um filme. Qual seria?
Pode ser chavão, mas seria ''...E o Vento Levou''.


