Na bolsa da publicitária Larissa Sandrini o celular divide o espaço com o cartão telefônico sem qualquer conflito. Ela faz parte de um grupo cada vez maior de usuários que, mesmo mantendo linha telefônica em casa e reconhecendo as facilidades oferecidas pela telefonia móvel, continuam recorrendo a um dos 14 mil ''orelhões'' instalados em Curitiba sempre que precisam se comunicar com alguém distante. Ainda que isso represente enfrentar filas e, muitas vezes, exija uma boa dose de paciência. ''Há sempre aquelas pessoas que ficam conversando durante muito tempo, sem se importar com quem está atrás, esperando'', conta Larissa, que costuma usar, até de madrugada, o aparelho que fica em frente ao edifício onde mora e já precisou chamar a atenção de quem teimava em não desgrudar do fone. ''Tem gente que esquece, mas o serviço é público. Já tive de reclamar, sim'', diz.
O hábito de apelar ao telefone público - chamado pelos técnicos de TP - acabou fazendo com que a publicitária se tornasse uma espécie de ''referência'' no assunto. Recentemente, ela criou um espaço no site de relacionamentos Orkut - Eu adoro um orelhão - para divulgar essa ''mania'', digamos assim. ''Meu chefe costuma dizer que, se quiserem me encontrar, basta me procurar no 'orelhão' mais próximo. Quando o aparelho aqui da frente toca, meu pai pergunta se eu não vou atender!'', diverte-se Larissa que, ultimamente, aproveita para dar uma ligadinha quando leva a pequena Giovana, sua filha de seis meses, para um passeio. ''Sempre usei e continuo usando. É prático e mais barato'', afirma.
O custo mais baixo da ligação - um cartão com 40 unidades comprado a R$ 4,00 dá direito a aproximadamente meia hora de conversa - é, sem dúvida, um fator importante para quem opta pelo 'orelhão', mas não o único motivo. ''No Paraná, há quase duas mil localidades onde o telefone de uso público é a única alternativa de comunicação da população, são as chamadas regiões de sombra, onde celular não funciona'', afirma o gerente de telefonia pública da Brasil Telecom, Celso Oldakoski. A empresa, que assumiu a responsabilidade pela manutenção do serviço após a privatização do Sistema Telebrás, em 1998, aponta um crescimento no uso do cartão telefônico. Isso confirmaria a tendência dos brasileiros de adaptar a realidade às suas necessidades. ''Nos centros urbanos, como Curitiba, é comum ver gente com celular na cintura e falando no orelhão. Como 80% dos celulares são pré-pagos, a pessoa recebe a ligação e procura o telefone público para responder ao chamado. O pessoal de vendas faz muito isso'', observa Oldakoski.
Há quem vá ainda mais longe no uso ''comercial'' do telefone público. ''Aqui perto de casa, o vendedor de cachorro-quente divulga o número do 'orelhão', atende as chamadas dos clientes, anota os pedidos e manda entregar. Não acho certo, assim é como se fosse telefone particular'', queixa-se a estudante Daiane Crupzacki, de 19 anos, outra usuária habitual do serviço, principalmente nas noites de sextas-feiras. ''É o dia de ligar para os amigos para combinar a balada''.

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