É dia de feira
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Os freqüentadores das feiras livres têm em comum o prazer de escolher pessoalmente o alimento que vai à mesa. Antes das compras, todos os sentidos são solicitados. A língua degusta um pedacinho do queijo para evitar levar um salgadinho demais. Só pelo cheiro é possível identificar o grau de maturação das frutas, para comprar a mais docinha. As mãos são ótimas investigadoras da firmeza e da integridade dos produtos, buscam rapidamente os que consideram melhores. Os olhos colaboram para escolher os legumes e frutas nas cores mais apetitosas. Os ouvidos estão sempre atentos às ofertas, sugestões e conversas sedutoras dos feirantes.
Dedicar uma horinha da manhã numa feira livre para abastecer a casa de alimentos para a semana pode virar um ótimo programa, além de ser vantajoso. É trocar as imensas filas de supermercados pela possibilidade de barganhar, fazer amizades e criar laços (por que não?) com os comerciantes. Situações das mais comuns nesses locais é ouvir o feirante chamar os clientes pelo nome e vice-versa. Ou mesmo observar que o dono da barraca conhece exatamente os produtos, texturas e sabores preferidos do freguês. Nossa clientela é formada pelas classes média e alta. Ela busca produtos de qualidade, selecionados, mesmo que pague um pouquinho a mais por isso, e é exigente, conta a feirante Helena Benato, de 33 anos.
Na banca da Helena há um diferencial: muitas frutas e verduras já estão separadas em saquinhos para os clientes mais apressadinhos. Geralmente são os homens que gostam assim. Mas tem dona-de-casa que fica desconfiada, prefere ela mesma escolher. Dou apenas mais uma opção. E ofereço o melhor, porque sei que, se o cliente não gostar, ele volta aqui e reclama comigo, diz a feirante, contando que as feiras mais movimentadas são as que acontecem às terças-feiras, no Batel, e aos sábados, no Alto da Glória.
A microempresária Cândida Mendes, de 55 anos, não abre mão de fazer as compras na feirinha da Água Verde, toda sexta. A lista tem desde frutas e verduras a queijos e biscoitos. Aqui tenho produtos frescos e de qualidade, embora o preço seja um pouquinho mais caro do que o do supermercado. Mas a gente sempre pode dar uma penchinchada nas bancas que a gente costumar comprar, explica. Faz parte do meu cotidiano. Gosto de vir à feira pelo pitoresco que ela envolve, pela conversa e por esse contato pessoal que você não encontra no supermercado. Gosto de tocar nas frutas, sentir o cheiro e até provar antes de levar, justifica Cândida, que costuma passar uma hora na feira.
Na barraca de Milton Kuroda, de 41 anos, as especiarias secas e conservas são vendidas a preços abaixo dos ofertados em supermercados. Meu preço concorre com o do Mercado Municipal, informa ele, contando que, durante a semana, a clientela se resume a aposentados, donas-de-casa e empregadas domésticas; aos sábados e domingos, é forte a presença de famílias e crianças. O preço de queijos e embutidos também chega a ser 30% mais barato na feira do que nos mercados. O quilo do queijo colonial ou de búfala, por exemplo, é vendido por R$ 10. As feiras livres funcionam das 7 horas às 11h30.
Inovações de praticidade na cozinha também estão presentes na feira. Na barraca de Mônica Alberti, legumes e verduras descascados e cortados são ótimas opções de compras para quem não gosta de perder tempo no preparo das refeições. Há saquinhos com legumes para yakissoba (700 gramas) ou seleta de verduras (560 gramas) para fazer sopas ou mesmo refogados, por R$ 2. Outros produtos como abóbora, mandioca, batata, cenoura, agrião, rúcula e até cheiro verde são picados ou apenas descascados, ao gosto do freguês.
Pratos prontos da culinária italiana ainda são preparados e vendidos pela dona Nara Koller, há mais de 20 anos, nas feirinhas. Nhoque, lasanha, macarrão, rondele e panquecas, além de molhos prontos são feitos todo dia por ela. Os preços variam de R$ 6 a R$ 12 cada porção para quatro pessoas.
A tranqüilidade para transitar na feira da Água Verde costuma atrair, inclusive, mães com filhos pequenos. Trouxe o bebê junto no carrinho para aproveitar o sol da manhã. Fazer compras na feira é uma tradição, opina a fisioterapeuta carioca Michele Gouvêia, de 27 anos. Uma sugestão deliciosa é experimentar as comidas à base de milho, biscoitos de polvilho e também os famosos pastéis da feira, crocantes e fritos na hora.
AS FEIRAS DE CURITIBA
- As feiras foram regulamentadas só em 1969 pelo município, quando tomaram grandes proporções. Antes funcionavam informalmente com os produtores da RMC e imigrantes.
- A feira oficial mais antiga da cidade é a que acontece na Rua Duque de Caxias, perto do Cemitério Municipal; as demais existem há cerca de 30 anos.
- As feiras noturnas (feiras livres + comidas) se formaram em 1989.
- A Prefeitura classifica as feiras em: diurnas, noturnas, orgânicas e gastronômicas (só três vezes, por semana).
- A feira do Alto da Glória, aos sábados, tem o maior número de circulação de pessoas, mais 5 mil.
- Por mês, circulam nas feiras da cidade 40 mil pessoas, a maior frequência é nos finais de semana.
- São cadastrados 731 feirantes que trabalham em 96 pontos da cidade.
- Cerca de 50 produtores da RMC participam de três feiras, por semana.
- O município calcula que as feiras de Curitiba geram uma cadeia de 3,8 mil empregos e R$ 64 milhões, por ano.
- 13 mil toneladas de frutas e verduras são comercializadas, por ano, nas feiras.
- A concorrência com os supermercados abalou, primeiramente, os negócios dos feirantes, mas hoje há uma situação de equilíbrio: os filhos estão assumindo as bancas dos pais mantendo a clientela fiel; feira é um negócio familiar.
Fonte: Gerência de Feiras Livres da Secretaria Municipal de Abastecimento


