Mineiro de Diamantina, João Caetano Andrade, 64 anos, é um típico bóia-fria do Paraná. Começou a trabalhar ainda muito criança –‘‘com 5 ou 6 anos’’– junto com os pais, que tinham terras no interior de Minas Gerais. Por isso mesmo, nunca frequentou a escola e não aprendeu a ler e escrever. ‘‘Minha leitura é o trabalho’’, conta. Aos 13 anos, se mudou para o interior São Paulo e, aos 17, casou-se e veio trabalhar no Paraná.
‘‘Antigamente ninguém tinha preguiça. Todo mundo era trabalhador e não havia tanta bandidagem’’, relembra. Com a mulher, Cecília, 62 anos, ele teve 14 filhos. Quatro morreram ainda criança. O agricultor trabalhou em diversas fazendas –‘‘cheguei a ser administrador mesmo sem ter leitura’’– até que, em 1982, resolveu se mudar para a cidade. Foi parar na Vila do Roque, em Barbosa Ferraz (74 km a leste de Campo Mourão).
Na cidade, virou bóia-fria. Mais do que isso: dos dez filhos que criou, nove seguiram a mesma ‘‘profissão’’. A filha mulher foi a única que ‘‘escapou’’. Dos nove homens, cinco ainda sobrevivem com a ‘‘bóia-fria’’. Eles moram no mesmo bairro do pai, mas trabalham no corte de cana-de-açúcar em Engenheiro Beltrão e São Pedro do Ivaí, as duas cidades a mais de 40 quilômetros de Barbosa Ferraz. Os outros quatro foram embora da cidade.
Humilde, Andrade diz que não se arrepende de ter se mudado para a cidade e se tornado bóia-fria. ‘‘Foi na bóia-fria que eu consegui a minha casinha’’, conta. A casa dele fica no bairro mais pobre de Barbosa Ferraz e não vale mais do que R$ 2 mil. ‘‘Na fazenda, trabalhava muito e não sobrava nada. O que fazia era só para o fazendeiro’’, conta. Hoje, Andrade está aposentado, mas admite que ainda tem que trabalhar para completar a renda.
Cecília também trabalhou muito tempo como bóia-fria. ‘‘Mas ela teve um problema na coluna e não aguentou mais subir no caminhão’’, conta o marido, rindo. Cecília deixou de ir ao campo, mas ainda não parou de levantar todo dia de madrugada para preparar a comida para o último filho solteiro, Cláudio, 19 anos, que também é bóia-fria. ‘‘É uma vida dura, mas a gente se acostuma’’, diz ela. Andrade reclama que a mulher não consegue se aposentar.
Segundo ele, a vida dos bóias-frias melhorou muito. Faz a afirmação baseado no trabalho dos filhos. ‘‘Eles vão trabalhar de ônibus’’, ressalta. ‘‘No meu tempo era todo mundo em cima de um caminhão’’. O velho bóia-fria também conta com orgulho que hoje os filhos têm uma marmita térmica dada pela empresa para a comida não esfriar. ‘‘Antes não tinha nada disso. Na hora do almoço a comida estava tão gelada que, muitas vezes, nem dava para comer nada’’.
Apesar de falar dos ‘‘avanços’’ para a categoria, Andrade diz que a vida do bóia-fria é triste. ‘‘A gente dá uma de alegre para não chorar.’’. Ele também lamenta que os filhos sigam a mesma rotina. ‘‘Trabalhei muito, mas não consegui melhorar a vida dos meus filhos’’. Andrade, porém, não perde o sonho. ‘‘Só queria que Deus me desse um descanso com uma terrinha com criação. Sabe, é isso que eu gosto, uma criação para cuidar.’’

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