Duas gerações de bóias-frias
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Sid Sauer Enviado a Barbosa Ferraz 
Mineiro de Diamantina, João Caetano Andrade, 64 anos, é um típico bóia-fria do Paraná. Começou a trabalhar ainda muito criança com 5 ou 6 anos junto com os pais, que tinham terras no interior de Minas Gerais. Por isso mesmo, nunca frequentou a escola e não aprendeu a ler e escrever. Minha leitura é o trabalho, conta. Aos 13 anos, se mudou para o interior São Paulo e, aos 17, casou-se e veio trabalhar no Paraná.
Antigamente ninguém tinha preguiça. Todo mundo era trabalhador e não havia tanta bandidagem, relembra. Com a mulher, Cecília, 62 anos, ele teve 14 filhos. Quatro morreram ainda criança. O agricultor trabalhou em diversas fazendas cheguei a ser administrador mesmo sem ter leitura até que, em 1982, resolveu se mudar para a cidade. Foi parar na Vila do Roque, em Barbosa Ferraz (74 km a leste de Campo Mourão).
Na cidade, virou bóia-fria. Mais do que isso: dos dez filhos que criou, nove seguiram a mesma profissão. A filha mulher foi a única que escapou. Dos nove homens, cinco ainda sobrevivem com a bóia-fria. Eles moram no mesmo bairro do pai, mas trabalham no corte de cana-de-açúcar em Engenheiro Beltrão e São Pedro do Ivaí, as duas cidades a mais de 40 quilômetros de Barbosa Ferraz. Os outros quatro foram embora da cidade.
Humilde, Andrade diz que não se arrepende de ter se mudado para a cidade e se tornado bóia-fria. Foi na bóia-fria que eu consegui a minha casinha, conta. A casa dele fica no bairro mais pobre de Barbosa Ferraz e não vale mais do que R$ 2 mil. Na fazenda, trabalhava muito e não sobrava nada. O que fazia era só para o fazendeiro, conta. Hoje, Andrade está aposentado, mas admite que ainda tem que trabalhar para completar a renda.
Cecília também trabalhou muito tempo como bóia-fria. Mas ela teve um problema na coluna e não aguentou mais subir no caminhão, conta o marido, rindo. Cecília deixou de ir ao campo, mas ainda não parou de levantar todo dia de madrugada para preparar a comida para o último filho solteiro, Cláudio, 19 anos, que também é bóia-fria. É uma vida dura, mas a gente se acostuma, diz ela. Andrade reclama que a mulher não consegue se aposentar.
Segundo ele, a vida dos bóias-frias melhorou muito. Faz a afirmação baseado no trabalho dos filhos. Eles vão trabalhar de ônibus, ressalta. No meu tempo era todo mundo em cima de um caminhão. O velho bóia-fria também conta com orgulho que hoje os filhos têm uma marmita térmica dada pela empresa para a comida não esfriar. Antes não tinha nada disso. Na hora do almoço a comida estava tão gelada que, muitas vezes, nem dava para comer nada.
Apesar de falar dos avanços para a categoria, Andrade diz que a vida do bóia-fria é triste. A gente dá uma de alegre para não chorar.. Ele também lamenta que os filhos sigam a mesma rotina. Trabalhei muito, mas não consegui melhorar a vida dos meus filhos. Andrade, porém, não perde o sonho. Só queria que Deus me desse um descanso com uma terrinha com criação. Sabe, é isso que eu gosto, uma criação para cuidar.


