Até chegar no nariz do freguês, a droga percorre um longo caminho. Ao contrário do que se imagina, o narcotráfico do início da rota à favela trabalha com cargas a conta-gotas, quase incessantemente.
No caso do crack e da cocaína, o volume raramente ultrapassa cinco quilos. Normalmente vem de ônibus de linha, de carros particulares ou escondidos no estômago das chamadas mulas.
Três praças dividem as preferências dos traficantes: Foz do Iguaçu, Corumbá e Ponta Porã, cidades fronteiriças no Paraná e Mato Grosso do Sul. Algumas favelas, a rota de Foz domina, em outras, a conexão é a sul-matogrossense.
Os detalhes, eles não revelam ou não sabem. As propinas a patrulheiros rodoviários e policiais podem até existir, admitem os traficantes formiguinhas, mas eles não têm noção de valores ou como esse esquema se organiza. Muitos dos estrategistas estão na prisão e fazem a ponte através de celulares dentro das celas. De lá, marcam encontros e acertam formas de pagamento.
Nos ônibus de linha, a droga volta normalmente no bagageiro, bem escondida e envolta em algum aroma marcante usado como despiste.
O enviado de Londrina chega à rodoviária do destino, encontra uma pessoa por meio de uma senha visual e seguem para a favela. Permanecem pouco na cidade e já retornam. Em relação ao tráfico com carros de passeio e caminhões, os integrantes da rede não quiseram informar os detalhes.
Quando a rodovia está ''suja'', uma dupla de enviados se submete a um ritual escatológico e corajoso. ''Os manos dividem um quilo de pó em 20 pacotinhos de 50 gramas e vão engolindo, engolindo, até encher o estômago. O pacote tem que ser bem feito porque se o pó vazar o camarada tá morto'', conta o flanelinha, que chegou a pedir, sem sucesso, para fazer o serviço. ''Dá moral na favela e o cara ganha uma grana firme''.

A fase seguinte é preparar o crack, que significa 90% da forma consumida da cocaína. O pó é colocado em uma panela com água e bicarbonato. Depois de formar uma pasta consistente, um garoto coloca ao mesmo tempo os dez dedos na panela (''As pontas dos dedos ficam detonadas''). A pasta cola no dedo e é transformada em pedra pronta para ser consumida. ''Tem gente que esmaga comprimido branco e mistura, mas não é negócio. O cara experimenta e não leva, ou se levar, não compra mais na boca'', conta uma traficante.

A pior parte é o 'desembarque' da carga. A dupla chega à favela, toma uma dose farta de purgante. Depois de poucos minutos, já estão evacuando em uma bacia. Um terceiro pega um papel e começa a limpar os pacotinhos.
O medo de 'cair' nessas viagens e a sensação extrema de fragilidade e risco também podem ajudar a explicar o impressionante conhecimento que a rede de tráfico tem do código penal. Eles têm amigos advogados aos quais podem contactar em qualquer eventualidade. ''Para sair do Ciadi (Centro Integrado de Apoio ao Adolescente Infrator), uns R$ 300,00 bastam. Para não subir prá Curitiba tenho que gastar uns mil reais com os meninos'', revelam.

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