Dorico da Silva, 53 anos, paranaense de Sertanópolis, começou a trabalhar como fotógrafo em 1961, depois de ter sido vendedor de jornais e revistas na Banca Capricho (Avenida Paraná, defronte ao Banco do Brasil), cujos proprietários eram também donos do Foto Horizonte. Eles tinham um serviço inédito: nas tarde/noites de footing, fotografavam pessoas que passavam pela calçada, que depois compravam as fotos.
‘‘Um dia faltou um fotógrafo; um dos proprietários perguntou se eu, que vinha aprendendo, já estava bom pra fotografar’’, lembra. A equipe fazia de 15 a 20 chapas por noite. ‘‘Eu usei dois filmes de 36 chapas e foram aproveitadas sete fotos só, porque na hora de colocar o olho no visor da máquina, eu cortava as pernas das pessoas, decepava o braço ou a cabeça. Mas o patrão, Francisco Hostert, dava força’’, lembra.
Com a ajuda de Roberto, irmão do patrão Francisco, uma semana depois Dorico estava fotografando, sem mutilar ninguém. E revelava e copiava. ‘‘Não cortava mais cabeças’’. Foi o início de uma próspera carreira. Corria muito dinheiro na cidade. Era no tempo do café. Boa parte dessa riqueza ia parar na zona do meretrício. ‘‘As mulheres tinham muito dinheiro’’. E Dorico, tornando-se independente, passou a fotografar na zona do meretrício. Fotografava tudo, até de madrugada. ‘‘Nunca misturei o meu profissionalismo com bagunça’’, ressalva.
Quando surgiu o monóculo, Dorico passou a viajar pelo Vale do Ivaí. ‘‘Ganhei muito dinheiro’’. Depois foi convidado para trabalhar junto com Wagno Barra Rosa, num foto anexo à Folha. Em 73, ingressou no jornal, onde ficou por 18 anos. Depois saiu, virou vendedor de carros durante quatro anos, e retornou à Folha em 94, convidado por J. Pedro.
‘‘O que mais me chocou, trabalhando na Folha, foi um despejo em São Jerônimo da Serra. O posseiro estava em uma fazenda, chegaram a polícia, o oficial de Justiça e um caminhão pra tirar a mudança de lá. Era um domingo e a mulher estava fazendo almoço. A polícia conversou com o chefe da família e uma hora depois a mudança já estava saindo, em cima do caminhão. Mulher e crianças chorando...’’
Dorico fez muitos trabalhos para a Folha Esportiva. ‘‘A gente cobria de norte a sul, tinha que ir e voltar no dia, fosse Curitiba, Joinville, São Paulo ou Rio’’. Indo a Umuarama, parou para ver um acidente. Eram 5h30. Um rapaz estava caído pela porta aberta de um Fusca batido num caminhão. Dorico desceu para fotografar e viu, no banco de trás, três mulheres, sentadas normalmente, paradas, de olhos bem abertos. Todos pareciam desmaiados. Mas todos os quatro estavam mortos. ‘‘Deu uma tremedeira, passei o dia chocado. Cada vez que passo em Arapongas, lembro-me disso.’’
Mas houve momentos agradáveis também. Na cobertura da implosão da ensacadeira (barragem feita para secar o rio no lugar onde será construída uma represa) da Usina de Itaipu. ‘‘O presidente era o Geisel. Fui com o Widson Schwartz, um motorista e o Patrão. Como o Patrão só bebe água e leite, terminado o trabalho, liberou eu e Widson pra beber. Fomos a uma pizzaria. Tomei oito canecas de chope e Widson tomou quinze’’, recorda.
Quando voltavam a Londrina, perto de Ubiratã, o Galaxie do Patrão estava a 180 km/h, ‘‘parecia estar voando’’. ‘‘De repente - lembra - aparece uma blitz à nossa frente, um guarda mandou parar. O motorista conseguiu parar o carro três quilômetros depois. Quando voltou, de ré, o guarda falou: ‘‘Vocês estão com pressa, heim?’’ O Patrão, ao lado do motorista, respondeu: ‘‘Estamos com pressa sim, porque temos que levar a foto do presidente. Se não, ele expulsa a gente’’. O guarda fez continência: ‘‘Então vai. Boa viagem’’.

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