Onde ela está e por onde passa a cena se repete: brincadeiras, piadas e perguntas. Muitas perguntas. Curiosa, quer saber onde o visitante mora, se ela já o conhece, se ele conhece os conhecidos dela, enfim... E não é à toa que Benedita Aparecida Bruno, a dona Benê, trata médicos, enfermeiras, funcionários e visitantes com a maior familiaridade. Ela é a paciente mais antiga do Instituto de Câncer de Londrina ICL). ‘‘Você é culpado pela minha doença? Não! Ela é? Não! Então, tenho que conviver com isso e com as pessoas da melhor maneira possível’’, resume.
  Moradora em Londrina, viúva, dois filhos, dona Benê tem 70 anos e há 25 trava a luta contra o câncer. O primeiro tumor surgiu no pescoço. Depois dele, fez seis cirurgias, duas para extrair as mamas. Ela exibe cicatrizes pelo tórax e abdome e explica que não pode se levantar da cama. O câncer atingiu a coluna vertebral. ‘‘Essa é uma doença que todos nós estamos sujeitos a ter. Eu estou aqui, viva, graças a Deus’’, diz a paciente, que procura justificar a secura da boca devido ao medicamento que acaba de tomar.
  Voz firme e olhar inquieto, dona Benê diz que cuida muito da alimentação para que seu organismo tenha condições de absorver os medicamentos. Ela busca informações sobre o tratamento e não aceita qualquer explicação dos médicos. Questiona tudo. Até o procedimento da enfermeira ao lidar com a paciente vizinha de quarto. Mostra-se credenciada a comentar a rotina hospitalar. ‘‘Sou antiga nisso. Já fundei a casa que recebe doentes de outras cidades e trabalho como voluntária’’, enfatiza.
  Na opinião de dona Benê, cada pessoa tem que buscar forças e ter ânimo para enfrentar os problemas que surgem. Ela comenta que procura transmitir serenidade diante da preocupação dos filhos. ‘‘Eu digo que estou bem, mesmo que não esteja cem por cento’’, revela. Uma atitude que ela diz não aceitar é a de pessoas que buscam um culpado pela situação que enfrentam. ‘‘Tem gente que acha que médicos ou enfermeiras têm culpa. Eles estão aqui ajudando a gente, fazendo o melhor e têm que ser bem tratados.’’
  Sobre o comportamento agressivo de quem se revolta com a doença, dona Benê afirma: ‘‘A gente é muito egoísta, gosta de estar sempre bonito, fazer de tudo, ser o melhor. Aí Deus dá um cutucão para dizer olha, eu existo. Eu estou aqui para te ajudar. E para esse Deus não importa a religião. Ele é Deus e existe’’.

mockup