Domingo é dia de pizza
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de julho de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Que São Genaro não nos ouça mandar baixar o volume da tarantella, a música com a cor de toalha de cantina italiana. No Dia da Pizza, comemorado hoje, o tradicional la-ra-la-ra-la-ra-la que acompanha um dos pratos mais tradicionais da Itália, tropeça na versão de que, do recheio ao formato tudo não passa de coisa de norte-americanos.
Detalhes históricos que não diminuem em nada o desejo de, no melhor sentido da palavra: Tudo acaba em pizza!. O uso político da expressão é usurpado de algo muito agradável. Quem consegue resistir aos conselhos de Baco, o deus do vinho, e não aprecia degustar a bebida, moderadamente, desfrutando da massa na companhia da família ou amigos?
Não se trata de querer criar um imbróglio na diplomacia gastronômica brasileira, que convive pacificamente com todas as culturas, mas a pizza que conhecemos, atualmente, é praticamente uma invenção dos Estados Unidos, como afirma o professor de História da Gastronomia, Djalma Araújo, do curso seqüencial de Gastronomia e Turismo da Universidade Norte do Paraná (Unopar).
Mais fatias de pizzas são devoradas pelos norte-americanos que os italianos. O Brasil fica em segundo lugar nessa mesa. Não é só por isso que os inventores do rock levam a fama de inventarem também a pizza fast-food, sendo que os carcamanos ficam com o mérito de criarem a pizza mais famosa do mundo, a Marguerita. Essa é uma história que contaremos depois.
Araújo lembra que entre as civilizações antigas, o pão era um dos alimentos mais consumidos. Falar em pizza é falar em pão, já que a base da massa é a mesma: farinha de trigo, fermento, água e sal. Entre os povos antigos, quando havia escassez de alimentos, o pão era o principal alimento. Eles começaram a passar algumas ervas sobre a massa, como se fossem cobertura, colocando no forno para assar. A pizza nasceu dessa brincadeira. O prato como é hoje é muito mais americano. Se quisermos uma referência européia podemos citar a napolitana, exemplifica o professor, apontando os fenícios e árabes no caminho dessa história.
Nesse ponto dos relatos aparece o primeiro dedo dos americanos, já que o tomate, principal ingrediente do molho da pizza, cruzou o Atlântico para chegar à Europa, dizem que levado por Cristovão Colombo.O tomate era uma planta de jardim e comida de animais. Somente com a falta de alimentos durante as guerras é que virou ingrediente de molhos, conta Araújo.
Se a história credita à Itália a criação da pizza mais famosa do mundo, os americanos inventaram os fast-foods, distribuindo pelo planeta as fatias da massa.
O Dia da Pizza é uma homenagem também à Marguerita, massa criada por Raffaele Espósito, em 1989. O primeiro pizzaiolo da história teria sido convidado para preparar uma pizza para a rainha Marguerita, esposa do rei Humberto, do recém-unificado Reino da Itália.
Ele modificou o prato original que na época era só um disco de pasta assada ao acrescentar o pomodoro, queijo mussarela e manjericão. A idéia cresceu como fermento, dando origem à pizzeria, espaço a céu aberto onde as pessoas se reuniam para comer, beber e conversar.
Os norte-americanos massificaram o invento. Nasciam os fast-foods de pizzas. Na história não podemos imaginar a pizza do jeito que se vê hoje. O trigo era diferente, sendo que a massa era mais pesada. Uma das primeiras pizzas criadas é a fogazza feita com massa fechada. A forma redonda é uma invenção americana, afirma.
Dizem as más línguas que os americanos arredondaram a pizza para cortar em fatias iguais e vender.Os ancestrais dos pizzaiolos contemporâneos se revirariam em seus fósseis se soubessem o que a América fez com a massa que nos primórdios era preparada com farinha de castanha.
Além de arredondar a pizza, os americanos jogaram catchup e mostarda em cima da massa, imperialismo que os brasileiros aceitaram de barriga cheia. O certo é colocar só um fio de azeite, orienta o professor. Se os italianos descobriram a Marguerita e a América o negócio de vender pizza, os brasileiros fizeram o milagre da multiplicação dos sabores.
Quem dera os camponeses europeus que preparavam uma das primeiras pizzas, que se tem conhecimento, pudessem experimentar delícias como a portuguesa, uma legítima iguaria brasileira?
Ao invés de abrir a massa na mão, cobrir com carne moída e, quando estivesse quase pronta quebravam ovos em cima, os antigos camponeses pediriam logo um rodízio, que para Araújo não é a melhor pedida. Existe uma preocupação em servir às pessoas uma variedade grande de sabores, economizando nos recheios. Acho interessante aquela coisa do recheio borbulhante. Nos rodízios, os sabores se misturam, prejudicando o paladar, acredita Araújo.
Dá onde será que a gente tirou que pizza somente se come à noite, tanto que as pizzarias abrem apenas nesse período? Essa mania nacional fez com que o setor em São Paulo tivesse um crescimento de 30% em 2005 com relação a 2004. Os paulistanos podem escolher entre uma das 5.850 pizzarias, que produzem mensalmente 42,9 milhões de unidades/mês, com sabores que vão da tradicional calabresa à mortadela com rúcula ou de rosbife.
Araújo explica que a maioria das pessoas acredita que a pizza é um prato leve, o que não é verdade. Porém, a crença é que abre as portas das pizzarias durante à noite, já que os apreciadores esperam que, depois de se fartarem, a massa não pesará no estômago e na consciência.
Depois de todas essas informações, esqueça a preocupação com as calorias, que ninguém é de ferro. Aproveite que hoje é domingo, Dia da Pizza, mande aumentar o volume da tarantella sem se importar com quem propagou o sabor da massa pelo mundo. Convide a família ou os amigos para uma rodada porque...manja que che te fa bene!


