'Dólares que caíam de árvores'
A beleza da cidade de Santa Helena (113 km ao norte de Foz do Iguaçu) é indiscutível. Com uma área alagada pela represa de Itaipu de 263 quilômetros quadrados, o município foi o mais atingido pelas águas. Porém, a compensação é ter uma praia de água doce dentro da área urbana e receber em torno de US$ 900 mil dólares por mês em royalties. No total, de acordo com dados da Assessoria de Comunicação da Itaipu Binacional, a cidade de 22.794 habitantes recebeu US$ 261 milhões desde 1991.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é bom. Santa Helena ocupa a 25 posição entre os 399 municípios paranaenses. Mesmo assim, o atual prefeito admite que muito mais poderia ter sido feito pela cidade com o dinheiro que vem da hidrelétrica.
Na recepção do gabinete do chefe do executivo, cartazes confeccionados em 2006 indicam a ''nova realidade de Santa Helena''. Os números mostram o quanto o município perdeu em receita depois da brusca queda do dólar. A moeda americana, que rege todas as finanças de Itaipu, chegou a passar da casa dos R$ 3,65 em maio de 2003. Em janeiro de 2006, um dólar era cambiado a R$ 2,35 e a cotação não parou de cair até ficar abaixo de R$ 2,00 em meados de 2007. Cada queda do dólar faz os prefeitos dos lindeiros a Itaipu coçarem a cabeça. Os cálculos dos royalties é feito, sempre em dólar, sobre a área alagada de cada município e a produção da usina.
''Quando o dólar estava na faixa de R$ 3,60, criou-se uma grande estrutura para o município e não houve a preocupação de criar uma base sustentável. Quando o dólar veio para R$ 1,60, a situação ficou complicada. A estrutura que temos é para 100 mil habitantes. Temos seis sub-prefeituras equipadas com máquinas. Aqui não se cobrava iluminação pública, e coleta de lixo. Ainda não se cobra água em alguns bairros e na zona rural'', comenta o prefeito de Santa Helena, Giovani Maffini, um descendente dos muitos ''gaúchos-europeus'' que colonizaram a cidade. ''No começo do mandato, tive que tomar algumas atitudes drásticas. Demiti 1.200 funcionários, reduzi de 12 para seis secretarias e reduzi os cargos de confiança de 399 para 70''.
Dizendo ter se decepcionado com a política, Maffini, que tem formação em comércio exterior, comenta que é preciso criar uma base de industrialização para aumentar a arrecadação livre de Santa Helena, que hoje não passa de R$ 1,5 milhão por mês. ''Os dólares são bem-vindos, mas os recursos não foram bem investidos por aqui. Esse dinheiro devia ter sido aplicado na iniciativa privada. Em Santa Helena, o pessoal dizia que quando se chacoalhava as árvores, em vez de folhas caíam dólares'', diz o prefeito.
Contudo, a cidade continua agradando a visitantes - milhares de turistas, inclusive da Argentina e Paraguai, invadem a praia de Santa Helena no verão - e moradores, que elogiam a tranquilidade e a boa qualidade de vida. Os estudantes universitários destacam o fato de não precisarem pagar pelo transporte até as cidades como Toledo, Cascavel e Foz do Iguaçu nas quais estudam.
''Há quem diga que estaríamos melhor se não fosse o alagamento. Eu não concordo. É claro que antes de as águas chegarem tínhamos mais de 60 mil habitantes e perdemos dinheiro quando o dólar cai. Porém, se os royalties não tivessem sido mal utilizados, com coisas supérfluas, a Costa Oeste seria um celeiro do Brasil, como eu acredito que ainda vai ser. Basta os royalties serem bem aplicados'', finaliza o prefeito. (W.S.)





