Glamour, milhões de dólares, flashes, fotos, fama, badalação. Na fila de qualquer seleção de agências de modelos, essas palavras estão na ponta da língua de meninas e meninos que sonham com uma chance nas passarelas ou diante das lentes. As mães, é claro, sonham junto - ou até por filhos. Desde 2006, mais de três mil profissionais associaram-se ao Sindicato de Manequins e Modelos do Paraná.
  Mas, entre uma foto e outra, provas de roupa daqui e dali, muitas vezes um fato fica de lado: ser modelo é profissão e o mundo da moda e da publicidade movimenta dinheiro, e muito. Há interesses financeiros e comerciais, que ditam medidas, regras, estilo de vida. Atenção para a foto. É preciso sorrir! Cinco segundos para entrar na passarela.
  As meninas ainda são maioria nas agências, mas os meninos também se aventuram nesse mercado. Há mais espaço para eles do que para elas. E é preciso iniciar cedo. ‘‘Para nós, uma menina de 18 anos já está velha para começar’’, destaca Aguimario da Silva Junior, o Guima, fotógrafo e sócio-proprietário da agência Íps.
  As leis trabalhistas exigem autorização da Vara de Infância e Juventude para menores de 16 anos encararem a profissão de manequim ou modelo, além de registro profissional na Superintendência Regional do Trabalho. Porém, isso não inibe os adolescentes. Agências não medem esforços para providenciar a papelada jurídica caso a agenciada esteja no perfil exigido. E tome trabalho e exigências, que não são poucas.
  Em dois contratos de agências de Londrina obtidos pela FOLHA há cláusulas que obrigam o modelo a apresentar-se para trabalhos ‘‘sempre descansado e bem apresentado (sic)’’, além do compromisso de sempre mencionar o nome da agência em entrevistas para veículos de comunicação, sob pena de dois salários mínimos de multa. Há ainda a obrigação de não ganhar peso ou mudar a aparência. A multa para quebra de contrato é de cem salários mínimos.
‘Fim da picada’
  ‘‘Um contrato desse é o ‘fim da picada’’’, opina o advogado José Carlos Vieira, consultado pela reportagem sobre o documento obtido pela FOLHA. Segundo ele, a atividade de agenciador não é ilícita, mas todo contrato deve ser baseado nos princípios da boa-fé e da eqüidade, sem onerar excessivamente uma das partes.
  ‘‘Quando isso acontece, o contrato pode ser revisto do ponto de vista judicial’’, afirma Vieira, emendando um conselho aos pais. ‘‘Não se deve assinar qualquer documento desse tipo sem antes procurar um assessoria jurídica. Os pais que permitem coações como as que estão nesses contratos também estão sujeitos a reprimendas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Há algumas cláusulas, como sobre exclusividade e uso de imagem e de voz, que tornam o modelo praticamente escravo da agência.’’
  ‘‘Na verdade, essas exigências não são da agência, são do mercado. Se a modelo não estiver no padrão que as passarelas exigem, ela não vai trabalhar. Há também quem considere abusiva a comissão da agência, que no nosso caso é de 35%. Porém, temos uma estrutura grande e pagamos 15% de impostos’’, afirma Guima.
Doçuras
  Deixando as agruras da profissão de lado, vale dizer que há também o lado bom. Como todos os outros trabalhos, quem gosta do que faz se dá bem e é feliz entre uma foto e outra.
  É o caso da atual miss Londrina, Rafaella de Paula, 23 anos, 1,78 m de altura e 90 cm de quadril - para passarelas se exige entre 1,75 m e 1,80 m de altura e 89 cm ou 90 cm de quadril, com raras exceções. Modelos comerciais, para fotos ou eventos, podem ter medidas diferentes -, a morena não titubeia ao se declarar feliz da vida com a profissão. ‘‘Desde pequena sempre gostei de desfilar. Comecei aos sete, com sapatos e roupas da minha mãe’’.
  A sorte sorriu para ela na fila de um banco, quando uma representante de uma agência a convidou para fazer o curso de modelo. As economias da mãe foram gastas para pagar as mensalidades e mais tarde houve uma decepção quando soube que a agência recebia pelos desfiles que ela fazia e pensava ser apenas para a divulgação da carreira. ‘‘Foi ‘maracutaia’’’, simplifica.
  Mas a carreira de Rafaella começou para valer aos 17 anos, quando ela encantou em um workshop do Catuaí Collection. Nesse evento, que acontece anualmente em Londrina, ela chega a entrar 15 vezes na passarela. ‘‘Fiz meu próprio marketing e conquistei meus clientes diretos. Por muito tempo, andei com o book debaixo do braço e fazendo contatos. Hoje, a passarela é a minha vida’’, revela.
  Sem pais ou parentes abastados, a miss abriu mão de tentar carreira internacional ou em algum grande centro brasileiro por falta de ‘‘grana’’, mas conseguiu sucesso e independência financeira trabalhando em Londrina. ‘‘Infelizmente é assim, tem muita gente boa por aí, mas sem dinheiro para abrir portas’’, lamenta.

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