A diretora Josina Melo usa um termo da moda para definir o tipo de artesanato que norteia seu novo documentário: "sustentável". Com o título de Sobre o Fazer..., o vídeo registra a produção de artistas regionais que, literamente, retiram da terra sua matéria-prima.
"São pessoas que trabalham com vime, cipós, raízes e madeiras sem agredir a natureza. E sobrevivem disso", explica Josina, mais conhecida pelo curta-metragem Helena de Curitiba, sobre a poeta Helena Kolody. Para a realizadora, tratam-se de artesãos autênticos, cujas obras são pautadas pela originalidade. O contrário do que ela chama de "industrianato" - o artesanato produzido em série.
Produzido pela Fundação Cultural de Curitiba, o documentário mostra o trabalho de cerca de 20 artistas da capital e de oito municípios da Região Metropolitana. A grande maioria, de acordo com a diretora, não tem a visibilidade que merece. "O curitibano não costuma valorizar as pessoas simples, sem instrução. Aí vem um turista estrangeiro e fica deslumbrado com o que vê".
Outro eixo do vídeo é a dificuldade que os artesãos enfrentam para transmitir seus conhecimentos. São técnicas passadas de geração em geração, mas que deixaram de atrair os mais jovens. "Todos eles gostariam de dar aulas. Alguma entidade poderia desenvolver um projeto nesse sentido", sugere Josina, cujo objetivo é continuar a pesquisa nas 17 cidades da Região Metropolitana que ainda não visitou.
Com uma linguagem convencional e didática, Sobre o Fazer... se concentra mais no ofício dos artesãos do que em suas histórias de vida. Dentro desse recorte "técnico", chama a atenção o árduo e lento processo de feitura de todos os trabalhos apresentados (independentemente do resultado estético do produto final).
As cestas de vime do casal Bárbara e Irineu Borgo, de Campo Largo, são um exemplo desse "sacrífício", como bem define Josina. Quem vê as peças prontas não imagina a complexidade envolvida em sua confecção - que inclui plantar o vime, cortar os galhos na época certa, ferver, descascar, separar e, aí sim, montar as cestas.
O vídeo ainda destaca artistas que reciclam resíduos urbanos. Como o escultor Pablo Martini, de Almirante Tamandaré, que produz bonecos de sucata e os expõe no calçadão da Rua XV. "Um material que custa menos de dez centavos pode ser vendido por R$ 50. Não existe um moleque de rua que não queira aprender a fazer isso", ele garante em seu depoimento. A diretora concorda: "Qualquer pessoa sabe que o investimento no jovem evita a entrada dele no mundo das drogas e no crime".
Mas por que, em plena era da reprodutibilidade digital, boa parte dos projetos socio-educativos se baseiam em ensinar artesanato? Será que os jovens não querem outro tipo de oportunidade (daí a dificuldade de se transmitir certos conhecimentos ancestrais)? "Não sou eu que defino isso. De qualquer forma, acho que ensinar um trabalho como esse pode ser o início de uma coisa maior. E também uma alternativa ao materialismo a que os jovens estão expostos", conclui Josina.
Lançado na última segunda-feira, na Cinemateca, Sobre o Fazer... ainda não tem outras sessões previstas. Exibidores, instituições e entidades interessadas podem entrar em contato com a diretora: [email protected].

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