DOAR & ADOTAR: o amor nas duas faces da moeda Na grande maioria das vezes, as mulheres que doam o filho, são maduras, têm idade entre 20 e 30 anos e já cuidam de outros filhos, normalmente sozinha e sem o apoio de um marido. A doação é feita com sofrimento e sempre em benefício do filho doado. Entre os motivos principas estão a péssima condição financeira e o desejo de oferecer a seu filho melhores condições do que ela mesma teve. São mulheres corajosas que se dispõem a sofrer a perda em favor da felicidade de um filho. ‘‘Muitas pessoas ainda acreditam que as crianças que chegam para adoção vêm de mães de vida desregrada, envolvidas em drogas ou prostituídas. Mas isso não é verdade’’, reforça a psicóloga Ana Paula Cruz de Queiróz, do Serviço de Auxílio à Vara de Infância e Juventude (SAI) de Londrina. São mulheres fortes que fazem da doação uma atitude amor comparável à disponibilidade de amor de quem adota e tem como objetivo ter um filho. ‘‘Quem adota assim não pensa no bem que está fazendo à criança. Só valoriza a alegria que aquela criança está trazendo para a sua vida, realizando seu sonho de ter um filho’’, analisa. Geralda (nome fictício), 51 anos, faz questão de contar a todos, amigos e colegas de trabalho, que tem cinco filhas, embora tenha criado quatro meninas. Não esconde de ninguém que resolveu dar sua filha em adoção a um casal em quem confiava e que daria amor, conforto e um futuro para a menina. Todos que a conhecem e acompanharam sua vida, diz, sabem o quanto sofreu ao abrir mão da menina de quem continua se sentindo mãe até hoje, 36 anos depois. ‘‘Eu chorei muito, me preocupei por ficar longe e não poder acompanhar seu desenvolvimento. Mas sabia que tinha feito o melhor e que a distância era importante para o equilíbrio emocional de minha filha’’, conta. ‘‘O meu coração sabia que os novos pais de minha filha a amavam tanto quanto eu’’. A compensação, acrescenta, veio com o tempo e o orgulho do que sua menina se tornou. ‘‘Ela tem o nível superior, fez cursos de especialização fora do país e fala várias línguas. Na situação em que eu estava quando doei minha filha, não sei o que teria sido dela’’, afirma. Ela teve a primeira filha com 15 anos (casou, mas o marido morreu antes que a criança completasse um ano). Bóia-fria, deixava a filha com os avós enquanto seguia para as roças de café, algodão e cana. ‘‘Aquilo não era vida e eu não tinha nem tempo de ser mãe’’, comenta. Mesmo assim, Geralda nunca tinha pensado em doar a filha até se ver envolvida com um casal que adorava a menina. A criança já tinha quatro anos e correspondia ao afeto do casal. ‘‘Quando o casal se ofereceu para adotar minha menina fiquei assustada, mas comecei a pensar na possibilidade. Eu trabalhava o dia inteiro, dormia no trabalho e minha filha tinha de ficar em uma instituição quase o tempo todo. Aos poucos, percebi que a adoção seria a melhor solução’’, explica. Sem a filha, Geralda admite que teve mais facilidade de reconstruir sua vida. Alguns anos depois se casou e teve outras quatro meninas. Ela deixa claro, no entanto, que a possibilidade de facilitar sua vida, abrindo mão da filha, nunca tinha passado pela sua cabeça. ‘‘Só constatei isso muito tempo depois, quando já estava casada. Na ocasião só pensei nela. Nunca esqueci de minha filha que sempre esteve nas minhas orações e pensamentos. Também nunca me arrependi de ter dado minha filha em adoção. Minhas filhas menores sempre souberam da existência dela e ficam contentes de ter uma irmã mais velha que tinha uma vida diferente da delas’’, conta. Hoje elas se conhecem e, apesar do relacionamento ser meio distante, garante que a filha mais velha não a recrimina e também se orgulha dela. ‘‘Eu continuo tendo uma vida simples, mas eu e meu marido estamos nos esforçando para conseguir dar o curso superior para às quatro filhas que tivemos. Minhas esperanças são ainda maiores porque minha menina mais velha já se ofereceu para ajudar nesta luta, embora suas condições financeiras sejam apenas um pouco melhor que a nossa’’.