Num lugar onde não chegam jornais, revistas e muito menos o carteiro, tudo o que acontece durante o dia tranforma-se em notícia à noite. Assuntos cotidianos que, dificilmente, serão estampados em manchetes, mas que se tornam a principal diversão dos jovens.
Na fronteira entre o Paraná e São Paulo, Pinhalzinho, distrito de Sengés (160 quilômetros ao norte de Ponta Grossa), a vilinha de 400 habitantes confunde os visitantes, que têm dificuldade para entender quais os limites do município paranaense com o vizinho paulista de Bom Sucesso de Itararé.
Para ir à igreja, os moradores dão um pulinho até São Paulo e voltam no mesmo instante, já que o pequeno templo fica do outro lado da rua, no território paulista.
A estação de trem também não escapa dessa dualidade. Inaugurada em 1974 pela Fepasa para ser terminal de ramal, seguindo até o Rio Grande do Sul (RS), curiosamente foi construída metade no Paraná, metade em São Paulo.
O ponto de cruzamento no meio do nada originou a vila de lenhadores, onde os jovens costumam contemplar, a partir da perspectiva da ruazinha de terra, a chegada e partida dos trens carregados de lenha, mas que trazem poucas notícias de progresso para os moradores.
''Assunto é o que mais tem aqui. O que se passa durante o dia, à noite a gente conversa. Hoje, o papo será sobre a briga que aconteceu no final de semana. Teve faca e até espingarda. Menina é um dos assuntos favoritos'', conta Matheus Pimentel Santos, 14 anos, aproveitando para dizer que casamentos na vilinha são poucos, ao contrário das separações.
Jogar futebol de campo nas quebradas da região de Socavão é o principal lazer do lavrador Valdecir Aparecido Ferreira, 40 anos. ''Porém, é tudo longe e difícil. Todo mundo vai a pé até o campo por percursos que chegam a 4 quilômetros. Agora, quem quer arrumar uma namoradinha tem de sair para o Socavão'', confirma Ferreira.
Quem mora mesmo em Socavão pensa diferente e não enxerga tantas opções de relacionamentos no vilarejo. ''A cidade é pequena e tem pouca moça. Eu até não tenho procurado. O meu interesse é fazer as minhas plantinhas para levar a vida. Operei dos intestinos e, com isso, fui deixando de casamento'', revela Orlando Marcondes Carneiro, solteiro aos 79 anos de idade.
Já os que não querem ver a vida passar pela estação de Pinhalzinho, esperam encontrar outras opções além das curvas da estrada de ferro, como a estudante do segundo grau. Uma menina tímida que não disse nem o nome, mas que, com os olhos no infinito da estrada, solta o sonho de ir embora para estudar e ser enfermeira.
Expectativa diferente do jovem Matheus que, ao olhar para as madeiras empilhadas no vagão do trem, não faz questão de partir com os sonhos.''Penso em viver aqui. Gosto das pessoas e, quando completar 16 anos, vou trabalhar na madeireira. Lá, se não estamos plantando, estamos cortando as árvores'', encerra o assunto o menino.(F.L.)

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