Do olho dágua à água encanada
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terça-feira, 09 de outubro de 2007
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Poucas fontes de água e bicas serviram para abastecer a pequena população de curitibanos, por volta de 1850, logo depois da emancipação política do Paraná. Como província, não demorou mais do que meio século para a cidade ver o seu primeiro sistema de abastecimento de água entrar em funcionamento. Mas até que a água fosse encanada, houve quem lucrasse bastante com a situação. Os pipeiros ou profissionais aguadeiros carregavam água em grandes pipas numa carroça até a casa dos fregueses. Cobravam pelo serviço 40 contos de réis.
Em 1871, foi construído o primeiro chafariz, na Praça Zacarias, fruto do trabalho do engenheiro Antônio Rebouças. Ele projetou um encanamento todo em cobre da Praça da Misericórdia (Praça Ruy Barbosa) até o Largo da Ponte (Praça Zacarias). O chafariz possibilitou uma função mais cômoda para os famosos pipeiros. Era um serviço de entrega em domicílio, se fosse hoje seria uma espécie de delivery. Quem não pagava os pipeiros, tinha de enfrentar fila, informa o professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná e membro da Academia Paranaense de Letras, Valério Hoerner Júnior, 64 anos.
No olho dágua do Largo da Misericórdia tinha muitos sapos, que às vezes vinha junto nas pipas. Foram abertas lojas de utilidades e criada mão-de-obra específica para fazer, por exemplo, uma peneira que separasse impurezas físicas da água. A preocupação era tanta que só se tomava água fervida naquela época, conta. Meu avô contava que as pessoas faziam isso para não ficarem doentes. Todo fogão era à lenha, onde se colocava uma grande chaleira de ferro para manter a água quente, completa Hoerner Júnior, que escreveu artigo sobre o tema intitulado de O Largo da ponte , subtítulo do livro Ruas e História de Curitiba (Editora Artes e Textos).
Curitiba foi crescendo e os chafarizes e olhos dágua começaram a ficar poluídos nos seus entornos e água mais escassa. Por isso, surgiu a preocupação em se buscar água de qualidade, trazendo água dos Mananciais da Serra do Mar (região de Piraquara). Era preciso uma infra-estrutura mais arrojada, pensando na saúde da população, no saneamento e na urbanização também, contextualiza o técnico de Patrimônio da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Manoel César Santos, que recebe os visitantes na Casa-Museu do Patrimônio Histórico da Sanepar, inaugurada no ano passado.
Foi assinado um contrato entre o Estado e a Companhia de Melhoramentos de São Paulo para a construção do primeiro sistema de abastecimento de água e de coleta, remoção e tratamento de esgotos do Paraná. As obras aconteceram de 1905 a 1908 e ergueram 17 grandes caixas dágua para receber água dos Mananciais da Serra, sendo a principal delas o reservatório do Carvalho ainda em operação , por meio de uma adutora de 38 quilômetros de extensão. O sistema iria abastecer por gravidade o Reservatório do Alto São Francisco, que por sua vez, seria ligado à uma rede de quase 35 mil metros com 28 torneiras públicas.
Em dezembro de 1908, a cidade foi beneficiada com uma rede coletora de esgoto de 50 mil metros, além do tratamento desses resíduos nas installações bacterianas. Nesse tempo, a cidade tinha 50 mil habitantes. No entanto, a Empresa Paulista não concluiu as obras de saneamento e a cidade não párava de crescer. Nesse contexto ocorreu uma epidemia de febre tifóide, em 1915. O Estado assumiu os serviços de água e esgoto e contratou o engenheiro Francisco Saturnino de Brito para desenvolver o projeto definitivo de sistemas de água e esgotos de Curitiba, informa Santos.
Foi criada a Directoria do Serviço de Água e Esgotos e, em 1925, construído o reservatório do Batel, para incrementar o abastecimento de água, seguindo orientação do engenheiro, autor do livro Saneamento de Curitiba que relata as condições precárias de higiene urbana na época. Havia situações da população abrir a torneira e não cair uma gota de água. Em 1928, está registrado no livro Resgate da Memória do Saneamento Básico do Paraná, organizado por Zair Lorival Luiz Shuster, a implantação do Departamento de Água e Esgotos (DAE), impulsionando também o saneamento para todo o Estado.
Só lembro do tempo de água encanada, de boa qualidade e que não havia racionamento. Naquela época ninguém consumia água mineral, a água que vinha na torneira era a mesma que a gente bebia, lembra o médico Lauro Grein, 86 anos, presidente da Cruz Vermelha Filial Paraná. Natural de Rio Negro, chegou com a família no ano de 1926, em Curitiba. Não lembro de ninguém dizendo que ia buscar água em torneiras públicas ou no chafariz. Ele era só de enfeite. Curitiba não tinha miséria e já era uma cidade com 120 mil habitantes, do tamanho do bairro do Portão hoje, afirma Grein.


