É em feriados como o do último final de semana prolongado que fica evidente o quanto Curitiba tornou-se ruidosa em dias ‘‘normais’’. O silêncio já é uma raridade a qualquer hora nos bairros mais centrais e não tarda muito até que o barulho alcance os mais distantes também, onde ainda se ouve passarinhos cantando no início da manhã.
  Com o acelerado ritmo de crescimento dos últimos anos, o som que sobressai aos ouvidos de quem circula pelas ruas da cidade é o de motores acelerando, buzinas incomodando, picaretas golpeando e máquinas trabalhando. Mas a Capital também tem lá seus sons mais curiosos do que perturbadores e aqueles que estão gravados na memória auditiva de qualquer um, como a voz da vendedora da loteria federal gritando numa esquina do calçadão ‘‘Borboleta 13, corre hoje’’, dos meninos chamando uns aos outros por toda a parte ‘‘ô, piá!’’, ou dos refrãos das torcidas organizadas. E se em muitas cidades brasileiras o som do carro das ‘‘pamonhas de Piracicaba’’ já se tornou um clássico, por aqui temos ‘‘o carro do sonho que está passando’’. ‘‘É o sonho freguesia!’’
  Vizinha há 26 anos do aeroporto do Bacacheri e da rodovia que já foi BR-116, hoje é BR-476 e em breve será a Linha Verde, Dolores Rodigheri, de 61 anos, lembra que na época da mudança de São Paulo para Curitiba, achou a Capital paranense ‘‘o céu’’. ‘‘Continuo gostando, só que mudou muito. Antigamente praticamente nem se ouvia o barulho’’, conta.
  A paulistana radicada em Curitiba atribui o aumento do ruído urbano ao crescimento populacional. ‘‘É uma conseqüência. A quantidade de carros aumentou muito’’, observa a moradora, que também ressalta o aumento do tráfego de aviões no aeroporto do qual é vizinha. ‘‘Você é obrigado a se acostumar não tem muito o que fazer’’, resigna-se Dolores.
  Mas não é preciso morar no Bacacheri para ouviu o ruído de turbinas passando sobre a cabeça. Embora o principal aeroporto da região, o Afonso Pena, esteja no município vizinho, São José dos Pinhais, a movimentação das aeronaves também sobressai aos ouvidos de quem mora na Capital. Assim como o apito do trem nas linhas que ainda cortam a cidade, o som da movimentação dos ônibus expresso circulando pelas canaletas (sem esquecer da voz feminina anunciando cada estação, como nos metrôs) e o ruído de motores acelerando, seguido de freadas bruscas, nas disputas entre carros em grandes avenidas durante a madrugada (como na Visconde de Guarapuava).
  Para o músico Caio Marques, sons característicos de grande centro já tomaram conta de Curitiba. ‘‘Os bairros mais afastados tinham um som mais de interior, hoje o som da metrópole, como rola em outras cidades maiores, tomou a cidade inteira’’, observa Marques, que lembra do tempo em que os vendedores de algodão-doce e casquinha de biju passavam batendo o ‘‘leco-leco’’ ou soprando o apito para anunciar seus produtos, no bairro onde o músico viveu durante a infância.
  ‘‘Cresci no Água Verde. Hoje os sons do bairro são os sons do Centro’’, afirma Marques, que tem duas obras da construção civil como vizinhas, também no Água Verde. Mas enquanto a cidade cresce alguns sons persistem, observa Marques. ‘‘Aqui tem periquito, sabiá. Tem uma colônia de maritacas no forro da minha casa e elas fazem bastante barulho. Temos duas árvores frutíferas e elas (as aves) sempre estão aqui’’, conta.
  Para o ator e músico Alexandre Nero, o ruído da cidade já se tornou um incômodo.‘‘Com esse crescimento todo talvez o barulho dos motores diminua e o das buzinas aumente’’, arrisca Nero. ‘‘O silêncio começa a ganhar valor imobiliário. É um sinal de que Curitiba não é mais uma cidade pequena’’, avalia. Ele lembra que durante algum tempo foi o sino da Catedral Basílica de Curitiba o responsável pelo fim de seu sossego. ‘‘Esse sino me acordava todo domingo de manh㒒, lembra Nero, que foi vizinho da Catedral.
  Mas para ele, que captou sons da cidade para um disco lançado recentemente, o único som que diferencia Curitiba de qualquer lugar do mundo é o sotaque do curitibano. ‘‘Você corta metade da apresentação por causa do sotaque’’, afirma.
  Com relação ao modo de falar local e sua sonoridade, Nero faz outra observação. ‘‘Na feira não ficam gritando. O curitibano é muito tímido, não tem esse tipo de tratamento. Aqui é tudo muito quieto, é do temperamento nosso’’, afirma. ‘‘Acho que curitibano fala alto só no cinema’’, completa.

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