Diversidade religiosa marca Londrina
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sábado, 03 de setembro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Nada menos do que 50 religiões ou fenômenos religiosos estão instalados hoje em Londrina. A quantidade, identificada pelo jornalista Walmor Macarini no livro ''Londrina Paraná Brasil - Raízes e Dados Históricos (Associação Pró-Memória de Londrina e Região, 2004)'', é grande, mas apenas dá uma idéia da diversidade cultural a que a cidade se sujeita, por ter nascido em um período de reconstrução de paradigmas sociais e por receber em curtos 70 anos de existência povos de todos os cantos do mundo.
Mais do que se mostrar receptiva a novas culturas, no entanto, Londrina abriga hoje um dos maiores crescimentos da adoção de crenças exóticas e esotéricas, num fenômeno descrito pelo pesquisador Reginaldo Prandi, do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), como ''supermercado religioso''. Entre todas as religiões que se colocam disponíveis, o londrinense escolhe somente os preceitos que mais lhe interessa para manter o fervor espiritual.
Entre a quantidade já citada, pelo menos 17 destes fenômenos merecem destaque por representarem religiões mundialmente tradicionais ou virem de culturas exóticas sem ligações aparentes com a cultura brasileira ou esotéricas, por aceitarem abertamente a magia como doutrina e ferramenta para que o homem interfira no próprio destino.
Além dos católicos e evangélicos, Londrina abriga grandes religiões de origem oriental (Holiness, Seicho-no-ie, Messiânica, Budista e Tenkirio). Conta também com representaões islâmicas, Bahá'i (de origem iraniana) e espíritas. A última novidade traz de volta tradições medievais de feitiçaria e bruxaria: Londrina também abriga adeptos da Comunidade Wicca.
Trazidas pela tradição asiática e estabelecidas com a ajuda do misticismo que as envolve, as religiões orientais talvez sejam as que mais encontrem adeptos entre os londrinenses, depois do catolicismo e dos evangélicos. Uma das representações mais conhecidas é a Igreja Messiânica Mundial. No Brasil, por sinal, Londrina foi a primeira cidade a receber um templo da religião, criado em 1931 pelo mestre Mokiti Okada. ''Em 1957, a Igreja Messiânica chegou ao Brasil'', destaca o reverendo Luiz Heiton Rossolém, coordenador de expansão para a Região Sul.
Hoje, pelo menos 2,1 mil londrinenses podem ser considerados integrantes da Igreja. Por integrante, entende-se a pessoa que, depois de participar de cursos e palestras, está apta a ministrar o Johrei, o ato de transmitir energias positivas a outro indivíduo pela imposição das mãos. ''Desta forma, transmitimos valores como paz e tranquilidade, com base em três preceitos básicos: ter gratidão, ser desapegado do material e tornar-se autruísta'', explica o reverendo, que estima que pelo menos oito mil pessoas frequentem o templo da Messiânica regularmente.
Explicar o crescimento de crenças como a Messiânica, no entanto, não é difícil, visto que Londrina abriga uma das maiores colônias nipônicas fora do Japão. Fenômeno mesmo é o crescimento de religiões que, há não muito tempo, eram diretamente associadas à prática do mal e que, pelo menos a princípio, não mantêm qualquer tipo de vínculo cultural com o nosso País. Neste quadro, encontram-se os praticantes da Wicca, crença que recupera tradições medievais por meio de feitiços, poções mágicas e o culto a deuses de panteões celtas, nórdicos, greco-romanos e até mesmo egípcios, numa grande salada religiosa.
Os wiccanos são muito discretos e temem o preconceito. Por isso, as reuniões e rituais são velados e o estudo das artes da bruxaria se dá de forma reservada. A prática, segundo a wiccana Juliana Ferraccini conhecida no meio como Veronika Morrigan estudante de psicologia de 26 anos, faz com que qualquer estimativa do número de adeptos da religião seja um chute. ''Muitos estudam sozinhos, outros em pequenos grupos. Não dá para saber quantos wiccanos existem em Londrina. Mas sei que são muitos, pois a religião está presente na cidade há pelo menos 10 anos'', afirma.
O grupo de estudos de Juliana é formado por cerca de 10 pessoas e identifica-se como ''Coven''. ''No nosso caso, oferecemos rituais a deuses do panteão celta, como Brigitte e Lugh. Mas cada grupo ou pessoa pode escolher a quem homenagear'', explica a também wiccana Juliana Galhardo, 25 anos também conhecida simplesmente como Dreida.
As associações indevidas com práticas maléficas explicam-se, em grande parte, pelos instrumentos utilizados para estes rituais: velas, pentagramas, espadas e adagas. ''Tudo para representar os cinco elementos: fogo, água, terra, ar e espírito, com um círculo ligando todos eles'', explica Veronika.
Exemplificando o ''supermercado religioso'', Londrina ainda apresenta aos cidadãos práticas que não são consideradas religiões, mas que aproveitam-se de princípios espirituais e filosóficos para a busca do crescimento do ser. É o caso da Associação Portal da Luz, um centro que busca o equilíbrio espiritual também no simbolismo da imposição das mãos, num ritual conhecido como Reiki. Segundo uma das coordenadoras do grupo, Madalena Yabu, a associação nasceu em Londrina e hoje recebe entre 70 e 80 pessoas por mês, para a aplicação do Reiki.
''Não somos uma religião. Simplesmente aproveitamos alguns preceitos que todas as religiões oferecem para a busca da aproximação com o Divino para alcançar o equilíbrio energético e espiritual'', explica uma das trabalhadoras do grupo, Maria Inês Garcia. ''Graças a isso, pessoas de todos os credos nos procuram em busca deste equilíbrio. Como exemplo, temos uma senhora evangélica que gostou tanto do Reiki que se sentiu à vontade para pintar uma imagem em homenagem a Nossa Senhora'', conta Maria Inês. É mais uma oferta da prateleira do supermercado.


