Diversidade de povos
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de dezembro de 2005
Vanessa Navarro e Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Há 71 anos, eram os solos férteis - sem saúvas como dizia a propaganda dos loteadores à época - que atraíam cidadãos de várias nações para a Londrina recém-nascida. A terra que pedia para ser plantada, povoada, desenvolvida, trouxe primeiro os ingleses - responsáveis por um dos maiores empreendimentos imobiliários do País -, que foram seguidos por japoneses, alemães, espanhóis e italianos, só para citar os numerosos.
Hoje, uma espécie de segunda colonização, bem mais sutil, garante que a cidade continue tendo sotaque estrangeiro. Eles estão à frente de salas de aula em escolas de línguas, nas universidades, em instituições públicas, nos restaurantes de culinária internacional, entre os artesãos das praças públicas. Seja onde for, enriquecem o cotidiano local já tão cheio de nuances trazidas dos quatro cantos do País.
Gente como a professora uruguaia Beatriz Labella, de 49 anos, que aportou em Londrina na década de 1980. Paco, o filho mais velho, nasceu pé vermelho, mas há muitos anos se mudou para o Equador. Beatriz, ao contrário, fincou raízes aqui. Morei em São Paulo e Porto Alegre. Quando me divorciei, acabei escolhendo Londrina para morar porque achei que seria mais fácil criar os filhos numa cidade menor, com menos violência, como era na época, recorda. Seus pais a seguiram algum tempo depois e moram com ela até hoje.
Dando aulas de espanhol, não foi difícil para Bia - como é carinhosamente chamada pelos alunos brasileiros - conservar a própria cultura. Nunca faltaram também outros vizinhos latinoamericanos no círculo de amigos: só na sua escola de línguas, há mais dois hispanohablantes, um paraguaio e uma chilena. Conheço vários outros, e a gente acaba formando um
grupo unido, afirma.
Nascida na Cidade do Porto, Helena Isabel Bramão Bittencourt Fortes Leal, de 68 anos, veio das terras dalém mar em 1979 para ficar. De espírito cosmopolita, experimentou três continentes - Europa, África e América do Sul -, mas foi em Londrina que decidiu permanecer e de onde, acredita, não sairá mais. Morei alguns meses em Curitiba, mas mudei para cá quando meu marido (também português) arranjou colocação aqui. Hoje me sinto integrada à cidade, já me aposentei aqui, destaca a ex-funcionária da Companhia de Habitação de Londrina
(Cohab-Ld).
E como é a Londrina vista por olhos estrangeiros? Quando os conterrâneos me perguntam, eu conto que é uma cidade moderna, com prédios bonitos, bons médicos, gente simpática, grande qualidade de vida. Só sinto falta de atrações turísticas, define Helena, admitindo que desde que chegou planeja ir ao Parque Artur Thomas, mas nunca dá certo.
Questionada sobre os lugares que mais aprecia na cidade, a professora Beatriz cita pontos que muitos dos próprios londrinenses não valorizam. Gosto muito da Concha Acústica, do edifício Júlio Fuganti e da Biblioteca Municipal. Acho que aquela parte da cidade tem um clima
e um visual legal, opina. Criadora de uma ONG cultural em Londrina, Bia destaca um ponto negativo: Acho que a cidade já foi melhor culturalmente. Havia mais espaço para artistas plásticos, acesso ao teatro, encontros literários, enumera. O olhar crítico dos londrinenses por opção é sempre bem-vindo nessa metrópole em eterna construção.


