Criança gosta mesmo é de brincar em bando, pelo menos, a maioria. Melhor ainda é dispor de muito, muito espaço. Por isso, pode-se especular que desde que foram criadas as cidades, a garotada costuma se juntar para brincar nas ruas, nas pracinhas, campinhos ou mesmo no quintal de casa. É quase uma reação em cadeia. Primeiro sai um garoto de casa e chama o vizinho, que por sua vez chama outro coleguinha e quando vê, pronto, já estão a postos duas equipes para jogar futebol, queimada (caçador) ou bete ombro.
  Brincadeira de criança também tem um quê de sazonal: dependendo da época a meninada se reúne para brincar de amarelinha, jogar bola de gude, empinar pipa, rolar pneu, pular corda. Quase que uma moda. Em tempos que o mundo é tomado pela internet e novas tecnologias, as brincadeiras tradicionais parecem ficar bem distantes, guardadas no baú de lembranças das antigas gerações. Mas basta dar uma volta nos bairros da periferia de Curitiba, que é possível encontrar a garotada se divertindo a valer nas ruas.
  Na Vila São Pedro, uma turminha de crianças, de 4 a 11 anos, aproveita o balanço e o escorregador na pracinha perto de casa, numa tarde ensolarada do inverno. Basta alguns segundos para se soltarem e começarem a fazer acrobacias. Tudo, é claro, sob o olhar zeloso das mães.
  ‘‘Hoje está muito perigoso. Não dá mais para a gente deixar eles saírem sozinhos. Aqui no bairro até roubaram crianças’’, justifica a diarista Neusa Fernandes, de 42 anos, mãe de Lucas, de 11, e Débora, de 7. ‘‘Eles gostam de brincar na pracinha, ainda mais nas férias, mas venho junto e fico esperando eles se cansarem’’, conta a mãe, lembrando que, há uma década, as ruas do bairro viviam cheias de crianças.
  Perto dali, meninos empinavam pipa e do outro lado da rua, um garotinho andava de rolimã (carrinho de rolamento), um brinquedo quase ‘‘folclórico’’ e que raríssimas vezes se vê pela cidade. Depois de observar uma família passeando de bicicleta, o garotinho sobe a ladeira novamente para descer de rolimã. Parecia não se importar com a simplicidade do seu carrinho, artesanal e feito de madeira.
  Para os pais que deixam os filhos brincarem na rua, a atividade é salutar e tem muitas vantagens. A maior delas é a sociabilidade que promove para a garotada. ‘‘As crianças precisam pensar e definir regras de jogo, o que gera aprendizados importantes para a formação do indivíduo. A troca de informações são mais aguçadas porque são muito diferentes os fatores financeiros, sociais, culturais e experiências de vida de cada criança. O detalhe é que na rua essas relações sociais e as decisões tomadas acontecem sem a mediação de um adulto’’, explica Simone Rechia, docente do Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
  Por isso, a brincadeira na rua tem potencial para formar valores humanos e políticos nas crianças, já que são elas quem definem as relações de poder. ‘‘Elas escolhem quem é o dono da bola, modificam e reelaboram as brincadeiras. Nesse momento elas trabalham a criatividade, a autonomia, o respeito e as relações de convivência’’, diz a docente, pontuando que as brincadeiras de rua vêm diminuindo em função das problemáticas urbanas, como a violência.
  ‘‘Infelizmente fazemos esta observação. Veja que a carga horária de trabalho dos pais leva os filhos a assumir compromissos dentro de casa, diminuindo o tempo de lazer deles na rua também’’, explica Rechia, dizendo que ainda assim existem grupos de amigos que mantêm viva as brincadeiras na rua nos bairros de baixa renda. ‘‘Jogos populares não exigem equipamentos sofisticados, por isso são mais praticados por crianças moradoras dessas regiões’’, diz a docente, que coordena, há quatro anos, um grupo de pesquisa sobre ‘‘Espaços e Equipamentos de Esportes e Lazer nas cidades do Estado do Paranᒒ.
  ‘‘A violência e a urbanização modificam as possibilidades de se viver no espaço público e de convivência com o outro. As ruas ou estão cheias de carros ou estão vazias e representam perigo’’, observa Rechia, dizendo que as crianças de alto poder aquisitivo brincam dentro dos condomínios fechados e têm à disposição tecnologia e bons equipamentos de esporte e lazer. ‘‘Nossa pesquisa detectou que as brincadeiras tradicionais são mais freqüentes nos recreios das escolas públicas do que nas privadas. Isso nos faz pensar na autonomia e liberdade que as brincadeiras de rua promovem para as crianças’’.

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