Dedicada a um segmento de dramaturgia mais reflexivo, baseado na pesquisa, a diretora Márcia Moraes acredita que o tom apelativo do teatro de entretenimento vai além dos títulos. Na opinião dela, uma das criadoras da Cia. Senhas, muitos desses espetáculos trazem à tona velhos preconceitos.
"O pior é que os produtores, quando justificam a opção por esse tipo de teatro, acabam colocando a culpa no público. Dizem que as peças mais profundas são ‘cabeça’ e afastam as pessoas", lamenta.
Márcia ainda aponta que as grandes audiências têm uma relação de consumo com o teatro. Segundo ela é a mesma coisa que assistir à novela, ao Big Brother ou comer um lanche em uma grande rede de fast food. "Na verdade, o universo dessas pessoas já está permeado pelos códigos do Zorra Total, e as peças que reproduzem esses códigos acabam fazendo sucesso", reflete.
Para a diretora, que reestreia em junho a montagem O Bicho Corre Hoje, a questão é mais complexa do que parece. Passa pelas políticas culturais, principalmente do Estado, e pelo conceito de formação de platéia. "Precisamos pensar, juntos, uma ação artística que dê conta tanto da produção quanto da conexão com o público", defende.
Já o premiado diretor Edson Bueno, atualmente em cartaz com uma versão de Romeu e Julieta, não vê segredo no fenômeno dos espetáculos supostamente mais apelativos. Segundo ele, o mercado apenas passou a focar uma demanda que não estava sendo atendida. Nesse pacote, incluem-se também os shows de stand up comedy e filmes nacionais como Divã e Se Eu Fosse Você.
"São tempos de recessão, de vida difícil na cidade grande. As pessoas querem se divertir, e não refletir. Embora devessem", diz Bueno, para quem o teatro de pesquisa sempre teve - e terá - dificuldades de se manter comercialmente.
Ele também compara os títulos chamativos de algumas peças aos das pornochanchadas. E lembra que, durante a ditadura militar, os filmes do gênero continham uma falsa transgressão, em que o sexo em si era substituído pela mera insinuação.
O diretor, no entanto, faz uma distinção entre os períodos: a repressão, agora, tem outras origens. "É uma forma de censura interna, motivada pela aids, pelo medo de se relacionar, de confiar nos outros", analisa.
Estamos, então, diante de um jogo de cena, em que o sexo aparece na superfície, porém não se realiza? "Prefiro não me arriscar nesse tipo de análise. Mas se o público vai ao teatro atraído pelo conteúdo erótico, e acaba não vendo sexo, deveria reclamar no Procom", diverte-se Márcia. (O.G.)

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