Dificuldades para chegar aos pacientes
Para o primeiro pediatra de Londrina, Afonso Haikal, 88 anos, uma das principais dificuldades para o exercício da medicina nos anos 1940 era acesso às casas, hotéis e pensões dos pacientes, uma vez que o hospital da Companhia de Terras Norte do Paraná era o único da cidade. O atendimento, normalmente, era feito nos consultórios dos médicos pioneiros. Na impossibilidade de deslocamento do doente, os profissionais enfrentavam a poeira ou o barro para fazer o atendimento.
''Além dos pacientes da cidade, nós íamos a chácaras e sítios ao redor. Era uma lástima, quando chovia era muito difícil. Para os lugares distantes, a gente ia de jipe. Na cidade, o meio de locomoção eram as charretes'', conta Afonso Haikal, que chegou em Londrina em março de 1941. Os médicos poineiros somente passaram a ter opção em 1937, quando foi inaugurado o Hospital Dr. Jonas, montado por Jonas de Faria Castro, pai de outro médico pioneiro de Londrina, Jonas de Faria Castro Filho. Jonas Filho e Haikal foram contemporâneos na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.
A precariedade de Londrina marcou o jovem médico Haikal. ''Quando cheguei, fiquei decepcionado. A maioria das casas era de madeira. Uma ou outra casa era de material, de tijolos'', relembra. Em início de carreira, montou um consultório na Rua Sergipe, em sociedade com outros colegas pioneiros. O imóvel também servia de moradia para os profissionais. Mineiro de Ubá, Afonso Haikal foi o 16 º profissional da área médica da cidade. Nos primeiros anos, não faltava trabalho, até porque era o único especialista em pediatria. ''Os outros médicos faziam todo tipo de atendimento, mas quando os casos eram complicados todos me encaminhavam os pacientes'', orgulha-se. Para ele, os casos mais difícieis eram de desidratação. Como não havia hospital, o tratamento era feito com soro via oral com soro caseiro, que era recitado em litros.
Na maior parte de sua carreira profissional, Haikal atuou na Santa Casa de Londrina, que foi inaugurada em 1944. Foram 58 anos de atendimento no hospital, período em que fez o atendimento de indigentes - ''sem cobrar nada'' - três vezes por semana. ''Nunca deixei de atender um doente porque não tinha dinheiro para pagar. Fazia por filantropia'', garante. Experiente, o pediatra considera o crescimento populacional como fator determinante da qualidade da saúde pública em Londrina. Para ele, o número de hospitais e de leitos é insuficiente. ''Devia aumentar a quantidade de médicos contratados'', aconselha.
Apesar dos problemas da saúde pública, Afonso Haikal considera Londrina ''bem servida em todas as especialidades da medicina.'' Situação diferente dos anos de pioneirismo, quando a criatividade dos profissionais era essencial nos tratamentos. Um dos casos emblemáticos foi do tratamento de uma criança de 12 anos com coqueluche feito a dois mil metros de altura. Segundo ele, o paciente era levado em um vôo de duas horas para receber grande quantidade de ar. Com duas ou três viagens, os pacientes apresentavam melhora de 80% a 90%. ''Apliquei o tratamento em duas crianças daqui, em avião particular, táxi aéreo, com sucesso'', rememora. F.R.F.





