Diários da recessão
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Recentemente, o jornal The New York Times convocou seus leitores a enviar fotos que retratassem o impacto da crise econômica mundial na vida das pessoas comuns. Chegou de tudo. Desde registros de pontos turísticos desertos a vitrines anunciando produtos com 90% de desconto, passando por ônibus cheios e gente se desfazendo de bens em "feiras de garagem".
Mas uma imagem em especial chama a atenção. Numa sala de escritório, colegas de trabalho comem juntos em volta da mesa de reuniões. Cada um com a sua marmita trazida de casa - e uma certa expressão de desapontamento estampada no rosto. Uma cena mais do que comum no Brasil, porém atípica para quem vive no primeiríssimo mundo.
Isso explica, em parte, o fato de que a maioria dos brasileiros ainda não sentiu os efeitos da recessão. Já estamos acostumados com a dureza, e não vai ser essa "marola", como gosta de dizer o presidente, que nos levará à depressão. Psicologismos à parte, a crise está, sim, entre nós. E não precisa ir muito longe para perceber suas consequências (por mais brandas que sejam).
Vide o exemplo da microempreendedora Michele Pastuchen, 29, dona de duas vans que transportam crianças e adultos em Pinhais e arredores. Desde que as demissões começaram a pipocar nas fábricas e no comércio da região, ela viu sua clientela diminuir quase 20%. "Como os pais agora ficam em casa, eles mesmos levam os filhos para a escola. Alguns até conseguem emprego, mas logo são demitidos de novo", explica.
De acordo com Michele, o desemprego também ronda a metalúrgica em que seu marido trabalha, em São José de Pinhais. "Todo dia sai uma lista de demitidos. Está todo mundo com medo", revela.
De volta a Curitiba, a reportagem conversou com o estudante de Publicidade Gabriel Pinheiro, 27. Vindo da Bahia, onde moram seus pais, ele é o típico jovem brasileiro que "se vira" para pagar a faculdade e as contas pessoais. No momento trabalha como Relações Públicas de uma empresa do ramo de educação, mas faz inúmeros serviços avulsos para reforçar a renda.
Gabriel era analista de marketing de um outro grupo educacional quando foi demitido numa leva de 40 pessoas, no início de 2008. Teve de recomeçar do zero, como estagiário de uma agência de publicidade. Sem perspectivas de efetivação, pediu desligamento e ingressou no atual emprego. "Estou bem por lá. O problema são os frilas, que deram uma parada", diz.
Seus clientes, ele conta, são pequenas empresas que precisam de serviços de propaganda relativamente simples, como folders e websites. "É um segmento que já não tem o costume de investir nisso. Com a crise, então, estão todos segurando os gastos", lamenta.
À noite, no entanto, Gabriel encontra outra realidade na faculdade particular. Enquanto ele conta cada centavo da carteira, os colegas parecem viver numa festa permanente. "Meus amigos, que moram com os pais e têm uma situação confortável, estão sempre comprando tênis novos, celulares de última geração. E continuam se divertindo, indo ao cinema, a shows, bebendo", afirma.
Válvula de escape
O produtor cultural Felipe Simas, 33, confirma a impressão de Gabriel: o mercado de entretenimento continua em alta. Para ele, o lazer "consumível" se tornou uma válvula de escape numa época em que as pessoas deixaram de investir em bens duráveis. Isso também vale para a classe C, que passou a incluir a diversão no orçamento familiar.
O que piorou, segundo Felipe, é o processo de captação de patrocínios. Principalmente junto às empresas multinacionais - estas, sim, afetadas pela recessão. "O problema é que a crise virou desculpa para negar apoio", reclama o produtor, que este ano trouxe a Curitiba shows de Leoni e Marcelo Camelo.
Corta de novo para a Região Metropolitana, onde Iris Oliveira, 33, faz um relato do que passou nos últimos meses. Em novembro do ano passado, ela foi demitida de uma empresa de montagem de computadores. Era auxiliar administrativa e mal conseguiu passar do período de experiência. A justificativa dos patrões não poderia ter sido outra: a chegada da crise.
Desempregada em pleno verão, e sem perspectivas, Iris achou melhor passar um tempo com a mãe, em Brasília. O alívio só veio em abril deste ano, quando, por meio de um amigo, ficou sabendo de uma vaga numa confecção em Pinhais. Passou pela entrevista, foi contratada e hoje trabalha como auxiliar de produção na fábrica de roupas para bebês. "Achei que seria muito mais difícil, porque o começo do ano já tinha passado", confessa.
O setor de vestuário passa ao largo da recessão. Sobretudo o de "moda bebê", como explica Luciana Bechara, 43, dona da confecção. "As crianças crescem e sempre precisam de roupas novas. As mães podem até deixar de comprar para elas, mas nunca para os filhos".
Luciana, que continua empregando, reconhece que a crise afetou mais os setores de exportação e o chamado mercado de luxo. Mas acredita que o susto inicial já passou - para todo mundo. "Acho que foi mais um sentimento", conclui.


