Mário e Arthur com o avô João Ayres, patriarca que consegue a proeza de reunir o clã todos os dias, em seu apartamento, ao redor da mesa do almoço
Existem coisas que compreendemos somente quando o vinho do tempo, mais encorpado, torna lúcida a arte da vida, principalmente se for servida em taças de um cristal nobre chamado afeto.
Assim acontece na relação entre pai e filhos. Apesar de hoje em dia encontrarmos nas prateleiras da sociedade pós-moderna uma carta variada de formações familiares, ainda se aprende a ser pai quando o tempo decanta o filho.
Numa alegoria dessa relação, o diretor Tim Burton no filme ''Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas'' (Big Fish), embebeda o público com a poesia de um mundo fantástico, onde um filho descobre que as histórias contadas pelo pai não eram simples mentiras, mas tornavam a própria vida mais encantadora. Afinal de contas, um peixe grande pode morrer se ficar preso num aquário pequeno demais.
Apagando o surrealismo do cinema, que emociona pela sensibilidade, projetamos as cenas de uma história real no Dia dos Pais, partindo em busca do perfil do pai moderno, que tenta não ficar preso no aquário pequeno e seguro do antigo espaço paterno dentro da família.
Pode parecer contraditório, mas encontramos o pai do século XXI embaixo dos cabelos brancos de um jovem de 93 anos, reunindo ao redor de si quatro gerações de uma mesma família, sem deixar que o tempo o envelhecesse.
Médico cirurgião-geral, João Dias Ayres é um desses pais modernos, que descobriram que a vida não precisa ser um aquário, mas pode se tornar o mundo. Ainda mais quando se é capaz de constatar que sempre é tempo de aprender.
Quem dá a definição desse novo modelo de pai, familiarizado com o telefone celular e o computador, é a bisneta do médico, a estudante de Odontologia, Daniela Menezes Bordin, 20 anos.
''Meu pai, neto do meu bisavô, é muito novo. A diferença entre nós é de apenas 22 anos. Para mim, o mundo dele é mais perto do meu. Uma distância muito maior me separa do meu bisavô. Porém, ele não vive do passado. Ao mesmo tempo em que é capaz de dar uma aula sobre Londrina, sabe mexer no computador. Para mim, pais modernos não podem ser aqueles que dizem: ' eu não acredito em separação e não gosto de piercing'. É preciso sempre buscar a atualização'', comenta Daniela, em sintonia com esses novos tempos.
Patriarca de uma família com quatro filhas, 14 netos, nove bisnetos, Ayres consegue o que para muitas pessoas parece impossível: reunir o clã todos os dias, em seu apartamento, ao redor da mesa do almoço.
''Esse afeto que temos entre nós é típico do sul do Paraná, onde nasci, o que aqui não é muito salientado. Apesar da vida corrida, procuramos manter sempre esse vínculo. O mundo está muito tumultuado. A responsabilidade do pai é grande. Quem constitui família precisa estar vigilante . Na civilização norte-americana, com 16 anos um adolescente é independente. No Brasil, isso está acontecendo agora. É preciso que o vínculo paterno seja estimulado. Num ambiente onde haja afeto aparece um interesse maior do pai e da mãe pelos filhos, que não ficam só com as imagens da TV. Aí forma-se o caráter dos filhos e hábitos são adquiridos'', comenta Ayres sobre uma educação, que tem como princípio o exemplo.
O médico acredita que a relação pai e filhos está cada vez mais distante do que era na época em que andava de calça curta pela cidade da sua meninice, Ponta Grossa (cidade-pólo).
''O respeito deve ter mudado. Hoje, o pai é encarado mais como um amigo. Não quero dizer que não deva ter esse tipo de relacionamento, mas não sei se mudou para o bem ou para o mal. O pai não tem culpa disso, mas a mídia influencia esse tipo de comportamento. Na minha opinião, o pai moderno ainda precisa ter um espírito de liderança na família. Precisa ter personalidade. A mãe moderna trabalha fora, exigindo que os pais sejam companheiros, amigos dos filhos, mas o pai deve dar uma maior contribuição'', comenta Ayres, acrescentando ser do tempo da lousa e do giz, mas que esses conceitos precisam estar na cartilha de todo pai.

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