Embaixo de marquises, em bancos de praça, pelas calçadas frias de Curitiba, dormem diariamente centenas de pessoas. Elas não têm morada certa, posses, ou alguma ocupação. Passam os dias a vagar em busca de um prato de comida ou uma garrafa de aguardente. Muitos foram deixados pela família, outros fugiram por maus tratos e desentendimentos. Todos fazem parte da mesma irmandade do abandono, são moradores de rua.
A prefeitura de Curitiba calcula que 755 adultos e 273 crianças vivem em situação de completo abandono. O perfil varia de caso para caso, mas a maioria envolve episódios de alcoolismo, drogas, desilusões amorosas e problemas familiares.
Na rua há mais de dez anos, Lacerda Júnior, 34 anos, afirma que já está conformado com sua condição. No passado trabalhou como auxiliar de escritório e atendente de lanchonete, mas uma briga com o pai em função da madrasta tirou-o de casa. Em uma sacola leva sua vida: algumas peças de roupa e um par de tênis, tudo fruto de doações. Não tem muitos amigos e os poucos que tinha foram sumindo, o que é comum na vida da rua. A pressão desta realidade, segundo ele, é grande e a violência uma constante.
Lacerda costuma dormir na praça Tiradentes ou nas proximidades do terminal Guadalupe, no centro da cidade. Quando chove, suas opções diminuem drasticamente. ''Onde tiver um teto eu fico'', diz.
Para minimizar a situação de abandono destas pessoas, a Fundação de Ação Social (FAS) da prefeitura possui o serviço de Resgate Social. Cerca de 200 pessoas procuram o albergue central diariamente em busca de uma refeição, um banho, ou um local para passar a noite. Eles vêm espontaneamente ou através das abordagens de equipes volantes que percorrem as ruas da cidade. Ao chegar, são encaminhados a serviços de saúde e ao atendimento social, que tenta resgatar-lhes a auto-estima e dar condições de uma vida mais digna. Mas poucos ficam mais de uma noite.
O morador de rua José Gabrial Isaías, 29, acha a realidade do albergue da FAS muito rígida. ''Tem fila pra entrar, fila pra comer, fila pra tudo, tem que acordar seis da manhã.' Mesmo assim, ele recorre ao serviço quando a situação fica difícil. Ele também já ficou em uma fazenda em Campo Magro por dez meses para desintoxicar-se do álcool. Lá aprendeu panificação e jardinagem, mas fugiu para comprar cachaça. Em outra tentativa de reabilitar-se, Isaías ficou quatro meses no Instituto Mais Viver, mas novamente o vício foi mais forte e ele voltou às ruas.
Com grande tristeza, ele relembra os bons tempos, quando tinha carro, moto, esposa e duas filhas. Tudo perdido por causa do alcoolismo. ''Não posso nem dar um abraço nas minhas filhas'', conta com raiva. Segundo ele, o último contato que tentou com a ex-mulher, hoje casada com um novo marido, foi desastroso. ''Ela disse que eu era inconveniente, pediu para eu não ligar mais'', lamenta.
Há 20 anos morando na rua, Isaías já presenciou diversas cenas de violência. Viu um amigo ser morto a tiros, apanhou de rivais, de ladrões e também da polícia. ''Tem que dormir com um olho aberto e outro fechado'', afirma.
Na irmandade da rua fez vários amigos, sempre em torno do vício. ''A gente faz 'vaquinha' pra comprar cachaça e sempre aparece umas mulheres.'' Mesmo entorpecido pelo álcool, Isaías depara-se com o desespero da própria realidade. Numa fala embargada, ele define sua situação: ''Não sei mais pra onde posso ir''.

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