Devoção passo a passo
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Não bastasse a chuvinha insistente, o frio de 15 graus (no verão) já era suficiente para convecer qualquer um a ficar em casa. Mas já diz a sabedoria popular que a fé move montanhas e foi ela que mobilizou os devotos até o Santuário de Santa Rita de Cássia, na Vila Hauer, na última quinta-feira à noite. Cerca de mil pessoas se reuniram para participar do final da novena e da missa para a santa. Depois, um pouco mais de devoção, motivou os católicos a integrarem a procissão que percorre as ruas do bairro, por cerca de uma hora.
O cortejo religioso, realizado todo dia 22 - dia devocional da santa - há um ano, é uma aposta para arrebanhar mais fiéis na comunidade e divulgar as atividades do santuário. ''É uma forma de evangelizar e de abençoar as pessoas que estão em casa. Somos um povo caminhante e a peregrinação na terra fortalece a fé e a devoção'', explica o padre Itamar Zigowski. ''Em Curitiba só há procissões em datas religiosas, não tem tradição como no Nordeste do Brasil. Aos poucos, as pessoas estão aprovando essa proposta aqui na Vila Hauer'', explicou o religioso, que liderou a procissão.
A imagem de Santa Rita de Cássia toda iluminada e decorada foi retirada do santuário e transportada em cima de um carro. À frente, caminhava o grupo de coroinhas, carregando a cruz e tochas. Bem acomodados num carro de som, cantores entoavam canções e eram acompanhados pelo coro formado, principalmente, de famílias que fizeram o trajeto a pé. Um cordão de isolamento organizou os devotos em uma fila indiana e ninguém perdeu o entusiamo diante da chuva.
''Vim preparada. Trouxe sombrinha para que a chuva não me impedisse de participar. Santa Rita é muito milagrosa. Nunca deixo de vir porque aproveito para agradecer as graças recebidas, todas relacionadas a saúde e emprego'', contou a artesã Marlene Mattos, 60 anos. ''Os milagres de Santa Rita aumentaram minha fé nela. Sou devota há 15 anos e desde então só coisas boas aconteceram na minha vida. Rezava para conseguir um bom inquilino e tive a felicidade em alugar minha casa para irmãs de uma entidade. Estou aqui para agradecer esse contrato'', revelou a aposentada Sônia Araújo, 66 anos.
Apesar do número significativo de participantes, a procissão seguiu praticamente solitária pelas ruas esvaziadas do bairro. Uma pena. Faltou uma recepção mais calorosa dos moradores. Faltou até curiosidade, afinal é a única procissão que acontece com frequência mensal na cidade. Mas teve quem não resistisse e colocasse a cabeça na janela para ver o que estava passando. Poucos foram até portão prestigiar a procissão e receber a benção do padre.
''É a primeira vez que passa aqui na minha rua. Ouvi o barulho e vim correndo para o portão. É bonito ver que o povo ainda tem fé em Deus, porque o mundo está tão incrédulo. A gente só tem notícia de guerras e injustiças. Isso aqui merece nossa atenção'', opinou a paramédica Alessandra Baruffi, 37. ''Santa Rita tem fama de santa das causas impossíveis, de resolver problemas financeiros, por isso ela é tão popular. Antes, a procissão causava estranhamento, mas agora algumas pessoas já aguardam na frente das casas. Aumentou até o número de pessoas na igreja'', informou uma das coordenadoras da procissão, Maria do Rocio Souza, 58 anos.
O aposentado Ivan de Farias, 65 anos, participou da procissão com a esposa Arlete, 57 anos, e a neta, Gabriela, 8. ''Viemos para agradecer a Santa Rita o emprego que meu filho conseguiu. Estamos emocionados aqui na procissão'', disse ele. ''Minha irmã tentou engravidar durante dez anos sem êxito porque o marido tinha a fertilidade comprometida. Ela fez o pedido a Santa Rita e engravidou. Teve não só um, mas três filhos. Foi um milagre da santa, porque exames mostram que meu cunhado ainda tem problemas'', acredita a auxiliar-administrativa Áurea Ferreira, 46 anos.


