'Desperte, humanidade do terceiro milênio!'
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domingo, 01 de janeiro de 2006
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Em sua mensagem de Natal de 2005, pronunciada do balcão da Basílica de São Pedro repleta de fiéis e transmitida ao vivo por 111 televisões de 68 países, o Papa Bento XVI surpreendeu o mundo ao convocar a humanidade para um despertar espiritual. Saindo do âmbito estritamente religioso e incluindo em seu chamado não só os católicos, mas pessoas de todos os credos, o Papa refletiu filosoficamente sobre uma necessidade premente do mundo atual, ao afirmar que ''o homem da era tecnológica pode ser vítima dos êxitos de sua inteligência e dos resultados de sua capacidade de ação, caso se deixe influenciar pela atrofia espiritual, pelo vazio do coração'', e ao incentivar a transcendência dessa condição, conclamando: ''Desperte, humanidade do terceiro milênio!''.
O médico cirurgião-geral João Dias Ayres, 92 anos, mais de 60 de carreira, que não é vinculado ao catolicismo, mas professa uma crença pessoal, de base cristã, ficou muito bem impressionado com a mensagem do Papa Bento XVI. ''Ele me pareceu mais filosófico do que seu antecessor'', comenta, ''oferecendo uma abertura a outras religiões, já que trata a espiritualidade não só como expressão do cristianismo, mas como expressão mais ampla, que abarca toda a humanidade''.
A mensagem do Papa também chamou a atenção do arquiteto Cláudio Shizuo Furukawa, Supervisor Administrativo e Doutrinário da Regional PR - Londrina da Seicho-No-Ie, em especial porque incentiva ''o despertar para a espiritualidade e não necessariamente para uma religião''. Doutrina religiosa iniciada em 1930 no Japão, a Seicho-No-Ie é contrária ao sectarismo, considerando que ''todas as correntes religiosas, não importa o nome, pregam a mesma verdade, apenas de formas diferentes''. É como se a espiritualidade ''estivesse no topo de uma montanha muito alta, que todos querem alcançar'', complementa Shizuo, ''os caminhos para se chegar ao cume são os mais variados - pedregosos, sinuosos, retos, mais ou menos íngremes - e todos são corretos, pois levam igualmente ao topo''.
Além de não restringir a questão da espiritualidade ao ponto de vista de uma única religião, o Papa Bento XVI, em sua mensagem, referiu-se ainda ao risco de ''o homem da era tecnológica'' acabar como ''vítima dos êxitos de sua inteligência'', acrescentando que a época moderna ''é regularmente apresentada como um período de despertar da razão, como a chegada da humanidade à luz''. Mas, ''sem Cristo'', complementou, ''a luz da razão não é suficiente para esclarecer o homem e o mundo''.
Para a professora de Lógica e Ética, Miriam Giro, também diretora do Centro de Estudos Filosóficos de Londrina (Cefil), com sua mensagem o Papa resgatou a tradição da crítica à razão, característica da escola filosófica de Frankfurt, na Alemanha, país de origem de Bento XVI. De acordo com essa perspectiva, explica Miriam, ''o endeusamento da razão, a ponto de se considerar o que está cientificamente comprovado como argumento irrefutável, atrofia nosso potencial espiritual, criativo e emocional''. Curiosamente, no entanto, completa, ''o próprio ato de pensar nos leva a buscar sempre mais''. Quando enfrentamos circunstâncias-limite ''como uma doença'', exemplifica, ''procuramos o médico - o recurso racional -, mas também rezamos, buscamos apoio no divino''.
O dentista e filósofo Otávio Martins Ribeiro, coordenador da Associação Cultural Nova Acrópole, em Londrina, que realiza palestras e cursos sobre filosofia ''à maneira clássica'', lembra que a ''diferença do homem para o animal não está em sua razão, mas sim em seu espiritual, porque o homem é o único que tem consciência de sua espiritualidade ou de Deus''. Contudo, como comenta Otávio, ''quem coloca em prática essa espiritualidade, os ensinamentos de Jesus, nos dias de hoje?''. E essa distância entre o pensar, os valores nos quais se acredita, e o agir no dia-a-dia, reflete-se ''na falta de moral, de integridade, que observamos''. Na Roma da Antiguidade, conta Otávio, ''não havia contratos por escrito, confiava-se simplesmente na palavra dada''. Atualmente, ''como se vê em especial com os políticos'', comenta, ''a palavra dada, a promessa feita, já não têm valor algum''.
Para a professora Miriam essa também é uma questão ética. ''A ética é o meio pelo qual se efetiva a política'', esclarece. ''A postura ética, que significa a conduta correta de cada um, traz bem estar à coletividade'', argumenta. Ética, moral, integridade unem-se para dar dignidade à razão, elevá-la ao nível da espiritualidade. Em sua perspectiva política, como explica Miriam, a ética contrapõe-se ''ao totalitarismo científico, que trata o homem como um ser unidimensional, colocando a razão como um fim em si mesmo e não como uma ferramenta, um recurso, para se atingir a lucidez nas questões de interesse coletivo ou para se alcançar a iluminação, sob o ponto de vista espiritual''.
''Se a ciência não tiver o apoio da ética e da religião'', acrescenta Shizuo, da Seicho-No-Ie, ''não há evolução da espiritualidade''. O arquiteto lembra que ''todas as tecnologias, em especial a genética, a nanotecnologia e a robótica, que caracterizam o mundo do século XXI, podem ser usadas para o bem ou para o mal''. Por isso, é tão importante que ''espiritualidade e tecnologia andem juntas''. O avanço científico, sem esse respaldo, diz Shizuo, ''traz uma luz artificial ao mundo''. Impregnado da idéia de Deus, ''propicia iluminação natural''.
Elizabeth Morikawa, uma das fundadoras do Centro de Estudos Energéticos de Londrina (Associação Portal da Luz), concorda com Shizuo, lembrando que ''embora nem sempre se tenha consciência disso, não haveria evolução possível na ciência sem a chispa divina, a oportunidade de descoberta que o divino possibilita e sem a qual nada acontece''. Tomar consciência desse divino em nós, complementa Madalena Yabu, Vice-Presidente do Centro, ''talvez signifique o despertar ao qual o Papa se referiu''. E cada um pode buscar em si a ampliação dessa consciência e cooperar para sua expansão no mundo.
''Se todos nos qualificamos como filhos de Deus, por que não agir de acordo com essa qualificação?'', pergunta Madalena. ''Despertar para a fraternidade, para a solidariedade, colocar a paz em movimento, amar ao próximo como a si mesmo, são ações simples e matéria-prima dessa rede que vai se tecendo, para formar a grande teia da vida''.


