No início dos anos 90, quem tinha um CD player no Brasil estava na onda da tecnologia, conectado à então grande novidade na música. Hoje, os álbuns em CDs já não dão grandes lucros para as empresas e o compartilhamento de música digital, assim como os avanços no setor, vão deixando o formato tão querido há uma década no caminho de se tornar obsoleto. Mas por que tanta gente está desistindo do CD? A reportagem conversou com um DJ, uma consumidora que entende do assunto e um músico para saber as razões.
''O formato em CD não é o ideal, estamos em época de transição'', opina o DJ Denis Pedroso, 26 anos, que organiza a festa In New Music We Trust e também discute música no site www.innewmusicwetrust.com. ''Não acredito mais em CD. Sempre questionei o fato do CD ter se tornado uma mídia defasada. O DVD ainda está aí porque vende bastante e é barato. Mas os dois são mídias frágeis demais. O DVD é locado, o cara leva pra casa, risca e o outro assiste'', critica.
Para a arquiteta Marcia Bley, 31 anos, o que mais afasta o consumidor dos CDs atualmente é o preço. ''O CD nunca foi uma coisa barata. Eu parei de comprar, a maioria dos CDs que tenho até hoje comprei em viagens que fiz para Nova York, Londres, onde os CDs eram baratos, como aqueles que vinham com um defeitinho, como um pedacinho da capa quebrada, por cinco dólares'', comenta. ''Além disso, o CD tem um tempo de vida útil muito curto, risca fácil, ocupa bastante espaço na prateleira e fica difícil encontrar aquela música no meio de tanto CD'', completa.
Outro ponto que contribuiu para que Márcia deixasse de comprar CDs foi a ausência de álbuns de bandas independentes estrangeiras por aqui. ''Já encomendei vários CDs, sempre gostei do objeto CD, do formato. Se eu gostasse de música pop brasileira, talvez comprasse mais, até porque tem bastante'', justifica.
Uma das grandes críticas atualmente às gravadoras acontece porque a mídia ''virgem'' de CD custa muito pouco para o consumidor, que questiona a razão da matéria-prima ficar tão cara no produto final. ''Na época do vinil, quem tinha a matéria do vinil era a indústria e os caras colocavam o preço que queriam. Aí colocaram o CD para queimar em casa e por R$ 1 ou R$ 2 você tem a mídia. Como é que vão cobrar R$ 20 ou R$ 30 reais pelo CD?'', questiona o músico Ricardo Pill, 25 anos, integrante da banda curitibana ruído m/m.
Para Pill, as bandas e gravadoras não vêm oferecendo um diferencial para que o CD continue sendo um produto atrativo, como um encarte mais trabalhado ou uma capinha artística. ''Hoje os CDs piratas não são do nível do CD original mas a qualidade do som é a mesma. O ideal seria lançar uma coisa que seja um pouquinho diferente para justificar o preço'', sugere. ''Se é uma coisa que gera uma conexão sentimental e eu tivesse dinheiro sobrando, iria comprar pra caramba'', afirma.

MP3s - O maior responsável pela queda nas vendas de CDs é o compartilhamento da música digital comprimida no formato MP3. ''A princípio, eu compro a idéia do MP3, pela possibilidade da música se reproduzir para um público que não teria possibilidade de ouvir através da Internet'', diz o DJ Dênis Pedroso.
''O tipo de música que a gente ouve não tem em qualquer loja, como aquele ''baldão'' com CDs da Ivete Sangalo. E na Internet você acha fácil e rápido. Além disso, você encontra várias bandas relacionadas e novas músicas, mais gente que gosta disso'', explica Marcia Bley.
Se por um lado os MP3s têm levado a música de forma mais rápida e fácil, por outro, alguns hábitos mudaram com esse novo consumidor. ''Acho legal você ter uma coisa física que não banalize o produto cultural. Muita gente hoje é desapegada à coisa física e por isso só quer ter a música da onda e acabou'', critica Ricardo Pill.
''Hoje a pessoa dificilmente ouve um álbum inteiro. Essa geração do download, ao invés de comprar, baixa uma ou duas músicas e vira um ouvinte de música 'hypada' e não de CDs. Na Inglaterra, o público jovem não é o mesmo que comprava CDs'', destaca Dênis. Com isso, as pessoas têm deixado de ver até mesmo o nome das faixas, do álbum, a capa do CD. ''Pergunte como é a capa do último álbum do Green Day. Se não for fã, não vai saber'', aposta o DJ. ''Mas isso também está mudando um pouco, as pessoas estão baixando mais o álbum inteiro, capinha e encarte'', completa.
Muito se fala sobre pirataria, mas como o assunto, que rende polêmicas todos os dias, ainda não paira sobre definições legais tão claras, os consumidores criam uma espécie de ''código de ética'' pessoal. ''Acho que a partir do momento em que o cara não está ganhando dinheiro em cima das cópias, pra mim não é pirataria'', fala Márcia, que apóia o compartilhamento de arquivos pela Internet.
''Tudo ainda está mudando de roupa, estamos em fase de transição. Uma hora falta uma camisa ou um tênis mas uma hora vai estar completo. A história prova isso, já aconteceu antes'', filosofa Dênis.

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