Desfile de Gigantes
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Quando iniciou, há nove anos, quase ninguém botava fé no Carnaval de Bonecos de São José dos Pinhais. Os organizadores e idealizadores, precisavam ir até as comunidades para praticamente 'convocar' as pessoas a participarem. A festa não fazia parte do calendário de comemorações e nem da vida cultural do município. Esse panorama, de fato, ficou no passado. O trabalho contínuo desenvolvido para disseminar e fortalecer a arte de fazer bonecos, em várias vertentes, desde a formação integral de artistas até a popularização do teatro e movimentação cultural sãojoseense, provocaram mudanças.
E a realização do carnaval com a participação de 25 bairros da cidade é um termômetro de tudo isso. O desfile dos bonecos gigantes, que acontece sempre uma semana antes do carnaval oficial, criou raízes e ganhou caráter popular. É uma festa do povo e feita pelo povo, que em breve, já poderá assumir sozinho a organização do evento. ''Aqui não existia tradição de carnaval de rua. As oito edições anteriores conquistaram isso. Hoje as pessoas é que nos procuram'', relata uma das coordenadoras do Carnaval e da Escola Livre do Teatro, Tadica Veiga. A escola pertence a Secretaria Municipal de Cultura que promove todas ações em parceria com outras secretarias e a comunidade.
Amanhã, 1,6 mil pessoas desfilarão na 9 edição do Carnaval de Bonecos, que inicia às 21h, na Avenida Veríssimo Marques. Antes, estão previstos na programação dois bailes carnavalescos, um infantil e um adulto. Foi montado no local uma infra-estrutura para receber um público de 20 mil pessoas, com palco, telões e arquibancadas. O desfile, que dura duas horas e meia, é composto ainda por nove carros alegóricos e 23 bonecos gigantes. O tema desse ano é ''Os Sonhadores da Paz'' e propõe uma reflexão sobre a solidariedade e ações para o bem da humanidade.
''Não se trata apenas de uma homenagem aos pacifistas, mas ao movimento de não-violência que eles fortaleceram. Veja que o nosso Carnaval juntou todo mundo, desde o mais pobre ao mais rico, como as senhoras rotaryanas'', explica Tadica. O tema também estará traduzido na marchinha composta especialmente para o desfile e nos bonecos gigantes: Nelson Mandela, Betinho, Zilda Arns, Madre Tereza de Calcultá, Gandhi, John Lennon, Martin Luther King, Bob Marley, Lady Diana, Bono Vox, Zumbi dos Palmares.
O Carnaval de Bonecos de São José se apresenta de maneira singular, é um misto do carnaval de rua de Olinda (PE) e das escolas de samba do Rio de Janeiro. Nada proposital. Ele tem características populares e de espontaneidade desde sua origem. Ninguém paga para assistir, desfilar, nem pelas fantasias. A idéia é que todos brinquem felizes e se sintam iguais. E no desfile a organização é semelhante às das escolas de samba cariocas, com alas divididas em grupos e temas, possui coreografias, destaques, mestre-sala e porta-bandeira. ''São José não é só aeroporto e fábricas. Aqui já existe uma vida cultural respeitada'', pontua Tadica.
54 pessoas, durante 40 dias
No dia 17 de dezembro a Escola Livre de Teatro parou suas atividades para virar um verdadeiro barracão e um grande ateliê para confecção dos bonecos gigantes, fantasias e adereços carnavalescos. Durante 40 dias, 54 pessoas, entre estudantes, voluntários, estagiários e costureiras se dedicaram a produzir o brilho e a beleza que adorna a festa. Por baixo, calcula-se que foram gastos mais de 10 mil metros de tecidos, 5 mil metros de paêtes, 10 quilos de glitter e purpurina, 2 mil caixas de cola, mil metros de espuma e 50 blocos de isopor. Foram confeccionadas mais de 8 mil peças de vestuário.
Já os bonecos, com até cinco metros de altura, foram feitos com estrutura de alumínio e cobertos com espuma e isopor. Ao contrário dos famosos bonecos de Olinda, que são habitáveis, os sãojoseenses são carregados por mochilas nas costas e deixam o carregador do boneco com o corpo todo à mostra. A técnica foi desenvolvida pelos alunos bonequeiros da Escola Livre de Teatro, que nesse ano, se dedicaram a criação de um elefante todo articulado, que mexe a cabeça, o corpo e a tromba. ''Foi um trabalho de engenhoca, fizemos várias tentativas até dar certo'', conta o bonequeiro Lucas Mattana, de 21 anos, que ainda colaborou para montar os bonecos de João do Pulo, que fará acrobacias na avenida, e de Maria Lenk que executará movimentos da natação.
Tudo foi produzido de forma artesanal, inclusive, reciclando materiais e fantasias antigas. Dona Lina Vion, de 76 anos, formada na Escola Livre, participa desde a primeira edição do carnaval de Bonecos, desfilando e confeccionando fantasias. ''Fico aqui das 9 às 21 horas. Me dedico porque é prazeroso participar. Dá trabalho fazer as fantasias, mas recompensa ver as pessoas desfilando felizes e bonitas. A população aguarda esse dia e nos aplaude na rua, reconhecem o valor da nossa festa. Nosso Carnaval não pode jamais morrer'', diz.


