Descoberta e destruição da tribo xetá
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Vânia Moreira Enviada a Douradina 
Ao longo do século, a tribo xetá se transformaria no maior exemplo do descaso e do desrespeito aos direitos da população nativa durante o processo de colonização do Paraná. Milhares de índios pereceram, mas nenhuma tribo seria dizimada tão violenta e rapidamente quanto esta. Última tribo selvagem descoberta pelos colonizadores, na metade do século, no Noroeste do Estado, os xetás teriam sua cultura e seu habitat destruídos em pouco mais de 10 anos e quase seriam extintos.
A tribo habitava a região denominada Núcleo Serra dos Dourados (hoje os municípios de Ivaté e Douradina e o distrito de Serra dos Dourados, município de Umuarama). Descobertos pelos colonizadores, os xetás são totalmente selvagens, conservam hábitos da Idade da Pedra e provavelmente nunca haviam mantido contato com os brancos. Os historiadores estimam a existência de cerca de 450 índios quando começa a colonização do Noroeste, no final dos anos 40.
Segundo a antropóloga e professora da Universidade Federal do Paraná Carmem Lúcia da Silva, não se sabe ao certo o destino dos xetás. Alguns se aproximariam dos brancos, passando a trabalhar nas fazendas, alguns seriam levados pela Fundação Nacional do Índio (Funai) para outras reservas do Estado. Crianças acabariam adotadas e criadas pelos fazendeiros. Muitos seriam levados de caminhão pela Colonizadora Cobrimco para lugares desconhecidos. Haveria também muitas mortes por doenças, desnutrição ou assassinatos relatados por alguns sobreviventes.
No final do século, restariam apenas oito xetás puros e cerca de 50 descendentes filhos e netos de xetás com outros índios ou brancos. Maria Rosa Brasil Tiguá, 50 anos, é a única dos oito xetás remanescentes que ainda vive na região. Trabalha de empregada doméstica em Umuarama e recebe ajuda comunitária para sustentar a filha, Indianara, de 17 anos, e o neto, Willian, de um ano e 5 meses. Maria Tiguá ficou órfã aos cinco anos e teria sido doada pelos índios à família que a criou, do pioneiro Antônio Lustosa de Freitas, de Douradina, considerado um protetor dos xetás.
Em 2000, o Paraná tentaria fazer justiça, propondo a demarcação de terras para que os últimos sobreviventes e descendentes desta nação indígena pudessem voltar a viver juntos e resgatar sua cultura. No final do ano, a Funai e o governo assinariam convênio para criar uma reserva para os xetás. Um grupo de trabalho inicia pesquisas de áreas que possam ser demarcadas, com preferência para a região onde viveu a nação xetá.
O Estado chegaria ao final do Século 20 com apenas 10,2 mil índios, menos de 10% da população original, estimada em 100 mil indivíduos. A maioria dos remanescentes estaria concentrada nas 17 reservas espalhadas por 23 municípios do Estado, num total de 85 mil hectares. A população indígena divide-se em três etnias: caigangue, guarani e xetá.


