Descendentes lutam para preservar cultura oriental
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sábado, 17 de setembro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
A comunidade japonesa do Norte do Paraná realiza hoje o terceiro dia de comemorações do Londrina Matsuri, uma grande festa de origem oriental em celebração à chegada da primavera. O evento seria apenas mais um dos tantos realizados desde a chegada de imigrantes europeus e asiáticos, não fosse por um motivo. Apesar de ser um dos mais recentes fenômenos migratórios registrados no País, a colônia nipônica da região é a segunda maior do Brasil e a maior do Estado do Paraná.
Na história dos imigrantes, é possível encontrar não só marcas da luta contra as guerras, intrínsecas à cultura japonesa até a derrota na Segunda Guerra Mundial. A briga diária pela manutenção da cultura também trespassa a vida dos japoneses que escolheram o Brasil como casa. Em alguns momentos, o sucesso é evidente e exposto pela arte e gastronomia. Em outros, a derrota parece inevitável, como no caso da língua, hoje pouco falada pela terceira geração de descendentes dos primeiros imigrantes a desembarcar no Porto de Santos, em 1908.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a população de Londrina é fortemente composta por pessoas de origem japonesa. Pelo menos 30 mil descendentes diretos residem na cidade, o equivalente a 5,4% do total de habitantes. Estima-se que um percentual bem maior carregue consigo o gene oriental, em qualquer grau de parentesco. E as ligações não param por aí: traços culturais apresentam-se tão fortemente ligados ao nascimento da cidade que hoje, muitas pessoas praticam religiões ou atividades artísticas japonesas sem nem mesmo conhecer a origem do que as encantou.
A forte ligação explica-se, em grande parte, pelo histórico da chegada dos japoneses ao Estado. Em 1908, quando os primeiros imigrantes desembarcaram em São Paulo em busca da prometida fortuna, um engano colaborou para que as relações entre os dois povos fosse amistosa desde o início. ''Ao descerem dos navios, os japoneses viram o estourar de fogos de artifício, em comemoração às festas juninas. Eles pensaram que a celebração era em homenagem à chegada deles e ficaram muito contentes. O esforço pela adaptação, por sinal, ficou evidente logo na chegada: todos se vestiram com roupas ocidentais, como forma de mostrar que estavam dispostos a ficar no Brasil'', conta a pedagoga pós-graduada em Filosofia da Educação pela Universidade de Londres (ING), Estela Okabayaski Fuzii.
Entender a escolha por São Paulo como primeiro lar fora do Japão é simples, já que, à época, os parlamentares daquele Estado foram os únicos a apoiar a vinda dos imigrantes para o trabalho nas fazendas de café. A opção pelo Paraná aconteceu alguns anos depois, quando os japoneses, frustrados com a pouca perspectiva de renda e assustados com a epidemia de malária, ouviram falar de terras vermelhas e férteis no Sul. Na década de 30, as primeiras famílias começaram a chegar ao Norte do Paraná e aqui se fixaram, como é o caso da talvez mais ilustre representante da comunidade nipônica do momento, a aposentada e agora atriz Aya Ono, vencedora de um dos mais desejados prêmios do cinema brasileiro pela atuação em ''Gaijin - Ama-me como sou''.
O reflexo deste movimento mostra-se em números: Londrina abriga a maior colônia do Estado, e Maringá, a terceira, perdendo apenas para Curitiba. A proporção ganha contornos ainda maiores quando a colônia japonesa é comparada com as de outras nações. ''O movimento migratório japonês é relativamente recente. Alemães e italianos chegaram antes ao Paraná. Ainda assim a presença nipônica é maciça, a ponto de ser a maior colônia da cidade'', afirma Estela.
A luta pela aceitação no Brasil foi grande. Como a própria dona Aya Ono ressalta, os japoneses, de certa forma, teriam sido ''enganados'' pela propaganda de que o Brasil era um país onde o enriquecimento seria fácil. A migração, que era incentivada pelos governos dos dois países desde a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, em 1895, sofria resistência no Parlamento Brasileiro, principalmente por causa do preconceito desenvolvido contra os chineses, taxados de ''preguiçosos''. ''Os brasileiros temiam que os japoneses não se adaptassem à cultura e ao trabalho. Logo perceberam que estavam enganados. Mesmo enfrentando grandes dificuldades, os imigrantes ficaram e provaram a disciplina e a competência'', diz Estela.
A luta da comunidade japonesa em Londrina, hoje, é outra. Mesmo sendo donos da maior colônia de imigrantes do Norte do Estado, a dificuldade para manter a cultura oriental entre os descendentes é evidente. ''Muitas características e traços da cultura japonesa são bem conservados em Londrina, a ponto de serem praticadas mesmo que as pessoas nem tomem conhecimento disso. A gastronomia, manifestações artísticas e marciais e algumas religiões, como a Messiânica e a Holiness, são alguns exemplos disto'', diz um dos organizadores do Londrina Matsuri, o diretor financeiro da Sercomtel, Luiz Shiroma. A própria festa, por sinal, configura mais um exemplo, já que a comemoração da chegada da primavera já está incorporada no calendário de eventos da cidade.
O Londrina Matsuri é apenas uma das várias manifestações em que pelo menos parte da cultura encontra um nicho de preservação. Com eventos de dança, música e uma espécie de festival gastronômico, a festa colabora exatamente para a manutenção de aspectos já destacados pela professora Estela e por Shiroma, como as artes e a comida. Na outra ponta da cadeia está a língua, o fator apontado por todos os entrevistados pela Folha como o que mais corre risco de ser perdido. ''Não há mais tanto interesse pelo estudo do japonês. Obviamente, os jovens preferem estudar outras línguas, como o inglês ou espanhol. Eu mesmo conheço muito pouco'', admite Shiroma.
Curiosamente, um aspecto especificamente econômico é o que tem mais colaborado para uma tímida recuperação da língua japonesa entre a comunidade. O movimento dekassegui, que leva anualmente milhares de brasileiros para o Japão em busca de trabalho, tem praticamente obrigado os jovens a rever a importância da língua. ''Hoje podemos até afirmar que a migração inverteu as mãos, pois há mais brasileiros indo para o Japão do que o contrário. Este movimento tem colaborado para a retomada dos estudos da língua, quase que por obrigação'', diz Estela, não por acaso.
Os dekasseguis enviam do Japão, onde trabalham, cerca de US$ 2 bilhões anuais para o Brasil. A prova de que a colônia japonesa de Londrina tem representação significativa parte daí. Deste total, mais de 17%, cerca de US$ 350 milhões, vêm para o Norte do Estado. A colônia brasileira no Japão, por sinal, não deixa por menos. É a terceira maior comunidade estrangeira no País, com cerca de 290 mil representantes. Seis mil deles são dekasseguis londrinenses.
A professora ainda encontra respaldo na jornalista Adriana Yumi Ito, que passsou um ano no Japão para estudar, em 2003. ''Admitia verbalmente que não tinha interesse pela língua até que me vi no meio da necessidade. Depois de ter voltado, sinto-me com vontade de tentar ser como uma espécie de ponte entre as duas culturas''.


