Descalço e com frio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Adriana De Cunto<br>Editora da Folha 
Manhã de sábado chuvosa e fria em Curitiba. Coloco uma jaqueta por cima da blusa de lã, pego o guarda-chuva e vou embora de carro em direção ao centro da cidade. Algumas quadras depois, meu pé comega a gelar...Ops! Esqueci de colocar uma meia grossa ao invés da meia fina.
Vou me amaldiçoando, reclamando da possibilidade da bota não segurar o frio... Penso em comprar uma ou duas meias de reserva e deixar no carro para essas horas e páro no semáforo das avenidas Mário Tourinho e Sete de Setembro. Um garoto, de 10, 11 anos surge na frente dos carros, usando apenas uma calça de moletom dobrada até o joelho, descalço e nu da cintura para cima.
Embaixo da chuva fina, o menino começa uma série de piruetas. Faz um giro (antigamente a gente chamava de estrela), joga os pés para cima e fica uns segundos equilibrando-se nas mãos. Volta, se concentra, dá empulso e faz mais um giro, desta vez com apenas uma mão.
Não acredito no que vejo e nem sinto mais meus pés gelados. Tenho pena do garoto e vergonha das meias que pensei em comprar para deixar de reserva. Esqueço a orientação das assistentes sociais (para não dar esmolas às crianças) e procuro rapidamente um trocado na bolsa.
Só que o menino nem chega perto da minha janela. Ele se contenta com um enorme pirulito dado pelo motorista do carro ao meu lado e corre para o canteiro central. Na grama molhada, o menino senta sem cerimônia e tira rapidamente o celofane que cobre o doce.
O sinal abre e uma buzina toca do carro atrás de mim. Continuo o caminho e algumas quadras adiante um menino faz malabarismo com três laranjas. Pelo menos, ele usa blusa e sapatos.


