"Nestes tempos em que, finalmente, começamos a compreender de fato a exiguidade dos recursos do planeta e a responsabilidade social de cada um, a arte também sai da toca. Engrossa o coro dos descontentes. Usa uma linguagem mais direta.
Como seres humanos, são os artistas que mostram, através de suas obras, como sentem as dores do mundo. Consumismo, individualismo, massificação, violência, o poder, a exploração, o subjugo, amor e desamor, a finitude e o esgarçamento social são temas recorrentes.
Um dos mais respeitados artistas da atualidade é um engajado crítico declarado, o alemão Anselm Kiefer, que produz pinturas de espessuras consideráveis, com a adição de sucatas e toda a sorte de materiais, para criticar o que chama de sociedade devastadora.
A radioatividade vazada na cidade de Goiânia, com vítimas fatais, foi tema de uma grande mostra de pinturas do goiano Siron Franco, em 1987. Ele voltou ao assunto em 2000, expondo uma série de esculturas e objetos, como camas hospitalares, para lembrar os vestígios nocivos do Césio 137.
O brasileiro Vik Muniz, que vive no exterior desde os 23 anos, tornou-se conhecido especialmente depois que sua obra à base de sucata urbana serviu de tema de abertura de uma telenovela. Num documentário indicado ao Oscar, em 2009, fotografou catadores de lixo de um aterro carioca e todos os envolvidos ajudaram no uso desses materiais de refugo numa obra de arte coletiva.
Não participo de movimentos sociais, políticos ou religiosos. Trabalho no ateliê solitária, todos os dias e parte das noites, de segunda a segunda. Isso me deixa, aparentemente, longe das questões aflitivas da realidade e do meio ambiente, mas não é verdade. Já se disse, ninguém é uma ilha. O noticiário, a conectividade e os relacionamentos alimentam minha curiosidade constante sobre o comportamento humano e seus enigmas. E me retêm no ateliê, produzindo reações, em pinturas e esculturas.
É um ateliê claro, num apartamento que escolhi principalmente por receber muita luz natural, e num prédio que, se não chega a ser uma construção inteligente e autossuficiente – eu adoraria –, reutiliza a água da chuva em serviços gerais.
Na arte, há muito tempo aboli o uso das tintas a óleo e, junto, solventes, diluentes e outros produtos igualmente tóxicos, que já me provocaram muita náusea e dor de cabeça. Uso tintas acrílicas solúveis em água, mas preciso dela em grande quantidade. Produzo muito, então sujo muito o ateliê, pincéis, espátulas, ferramentas. Destino a isso a água que coleto do chuveiro, antes que ela esquente para os banhos em casa.
Não há jatos fortes de água e nem luzes acesas desnecessárias. Sacolas plásticas raramente entram. Orgânicos têm preferência sempre. Produtos recicláveis saem daqui limpos. Óleo, pilhas e baterias vão para os devidos pontos de coleta. Sapatos e roupas de que gosto ganham sobrevida com minhas reformas e customizações.
Ainda não consigo obter certeza de que é certificada a madeira usada nos chassis de telas que encomendo. Mas, quando pinto ou projeto as esculturas em papel, nada vai para o lixo. Todas as sobras recortadas, graças à colagem, viram novas obras. Nenhuma vantagem, nenhum mérito. Minha obrigação. Na verdade, faço tão pouco!"

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