Dengue ainda assusta londrinense
A maior ameaça para Londrina se constitui, de fato, por uma velha conhecida do londrinense, a dengue. Infectando mais de sete mil pessoas em 2003, ano em que a cidade enfrentou uma das maiores epidemias de que se tem notícia, a doença representa motivo de preocupação constante para a Secretaria Municipal de Saúde.
Por ser cíclica, a dengue alterna momentos de relativa calmaria com ocasiões em que a cidade apresenta índices de infestação até 20 vezes maiores do que o máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Enquanto a organização espera por índices nunca superiores a 1% do total de casas visitadas, Londrina já passou por picos de até 19,4%, em 1998.
No ano da epidemia, quatro dos sete mil casos eram de dengue hemorrágica, a que oferece mais riscos para a sa© úde humana. Duas pessoas morreram. Em 2005, a situação aparenta estar controlada, já que a secretaria registrou apenas 10 casos, seis deles importados.
Com a chegada do verão, os perigos de uma nova epidemia voltam a atormentar as autoridades. ''Todo mundo sabe que é o mosquito Aedes Aegipty o transmissor da doença, e todos sabem como fazer para evitá-lo. Mas poucos têm o hábito de evitar o acúmulo de água limpa em garrafas, pneus e vasos, o local onde os mosquitos põem os ovos'', explica Maurício Barros, diretor de Saúde Ambiental da secretaria.
Como exemplo, ele cita um estudo realizado pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS). ''Segundo este estudo, 90% da população da América Latina sabe como combater o mosquito, mas 80% não adquirem os hábitos necessários para tal'', afirma.
Londrina também serve como exemplo de que a dengue não faz distinção de classe social. Neste ano, os maiores índices de infestação foram registrados tanto em bairros de população de baixa renda, como os conjuntos Marízia e Leonor, como nos mais abastados, no caso do Shangri-lá.
A epidemia de 2003 só faz aumentar os riscos de que, no caso de um novo surto, o número de doentes de febre hemorrágica seja maior. ''Não há nada comprovado, mas as estatísticas dizem que se uma pessoa contrai dengue mais de uma vez, é quase certo que na segunda vez ela desenvolva a doença mais letal'', diz Margareti. ''O risco não só existe, como é considerável'', conclui Barros.
Morcegos e lendas
O pequeno vilarejo de Aurizona, a 600 km da capital do Maranhão, São Luiz, é um dos últimos casos que a mídia gosta de vender como ''sinal dos tempos''. Os moradores da cidade nordestina enfrentam, desde o início do ano, uma infestação gigantesca de morcegos.
Casas estão sendo cercadas por redes e, num calor que, mesmo à noite, ultrapassa facilmente os 30 graus, famílias são obrigadas a dormir de janelas fechadas, tamanha a frequência com que os mamíferos voadores invadem as residências.
Ataques a humanos, apesar de raros, estão deixando a população apavorada, principalmente porque as vítimas preferenciais dos morcegos são crianças. Em pelo menos uma delas, já foi confirmado o contágio por raiva.
A invasão explica-se pela atividade garimpeira da região, caracterizada pelo alto grau de depredação de áreas verdes. ''Com o fim das matas, os alimentos do morcego hematófago (que se alimenta de sangue) desaparecem. A tendência é a de que ele vá buscar este alimento na cidade'', explica o professor titular de Ecologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Nélio dos Reis.
Numa cidade industrializada como Londrina, a preocupação com a depredação de áreas verdes é constante. Mas seria possível imaginar uma grande infestação de morcegos? ''Considero este risco praticamente nulo'', avalia o professor. ''Aqui, eles têm habitats naturais em pontos muito específicos, como o Parque Artur Thomas e a Mata dos Godoy, áreas de preservação ambiental e que, portanto, são intocáveis'', explica.
O professor também faz questão de frisar a inofensibilidade dos tão temidos animais. ''Morcegos transmitem raiva como qualquer outro animal de sangue quente. Neste aspecto, os cachorros representam uma ameaça muito maior'', salienta.
Ainda assim, em Londrina, quem mora nas proximidades do Parque Artur Thomas não se sente à vontade com a presença dos vizinhos voadores. ''Sempre vemos alguns enormes por aqui. Chega a dar medo'', conta o aposentado Zaqueu Golveia, que até sugeriu que utiliza-se veneno para acabar com os animais.
O que o aposentado não sabe é que, desta forma, estaria eliminando um exímio caçador de uma ameaça verdadeiramente preocupante para a população: os ratos. ''Os morcegos são os melhores caçadores da natureza. Em Londrina, temos 42 espécies deles. A maioria é insetívora, com importância ainda maior, por se alimentar com uma quantidade de mosquitos até 50% superior ao próprio peso por dia''.
Inimigos dos ratos
Na caça aos ratos, a proporção é bem menor. O que importa, neste caso, é que a presença de um predador no caso, os morcegos carnívoros inibe a presença dos roedores, estes sim, um perigo à sa© úde. ''Vivemos em meio a ratos. Eles invadem nossas casas, comem os fios de eletrodomésticos, fazem cocô dentro do fogão... Não há como acabar com eles'', reclama a esposa de Zaqueu, Vilma Golveia.
Ao contrário dos morcegos, os ratos são animais antropofílicos habituados ao estilo de vida do homem. Esta característica, aliada à grande capacidade reprodutiva, faz dos roedores uma ameaça muito maior quando se trata da possibilidade de uma grande infestação.
''O ciclo de vida de um rato é muito mais rápido do que de um morcego. Por isso, a população de roedores pode aumentar numa escala bem maior, se houverem condições para isso. E com isso, as chances de transmissão de doenças como a raiva, a hantavirose e a leptospirose também se ampliam'', enfatiza Nélio.
Por isso, dona Vilma avise seu marido. Antes dele pensar em acabar com os morcegos, peça para ele pensar nas consequências que isso pode trazer. ''Não é possível determinar quais os riscos que Londrina corre de sofrer uma invasão de ratos, mas eles são, com certeza, muito maiores do que os de uma infestação por morcegos'', conclui o professor.
Inimigos invisíveis
Ameaças muito mais temidas do que morcegos ou formigas são as provocadas por doenças. Neste momento, o destaque nacional fica por conta da febre maculosa, causada por uma bactéria a Rickttesia ricktessi tramsmitida ao homem por um companheiro presente na história da humanidade desde que os primeiros animais silvestres foram domesticados: os carrapatos mais especificamente, o carrapato-estrela, também conhecido como micuim.
O Ministério da Saúde já identificou pelo menos cinco focos da doença no Brasil, concentrados nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Febre repentina, dor de cabeça, mal estar, dores musculares e o surgimento de lesões róseas na pele também conhecidas como máculas.
O Paraná também contabiliza um caso oficial, registrado em São José dos Pinhais há pouco mais de um mês. No entanto, mais pessoas podem estar infectadas sem o conhecimento da Secretaria de Estado de Sa© úde, já que a notificação não é obrigatória.
Londrina conta com um foco em potencial. No parque Artur Thomas moram cerca de 22 capivaras, o animal preferido pelo carrapato-estrela. ''Já fazem pelo menos dois anos que nem levo meus filhos ao parque, com medo de que eles sejam picados. Hoje não dá nem mais para sentar no banco que fica do lado do bosque. É só ficar lá por alguns minutos para começar a sentir as picadas'', conta a dona de casa Eliane Golveia.
O medo exposto pela população diante da ameaça da febre maculosa, no entanto, explica-se mais pelo alarde promovido pela imprensa quando tratou dos casos confirmados, do que pelo risco real de um surto ou epidemia, que, segundo a secretária executiva de Saúde de Londrina, Margareti Shimiti, são mínimos. ''O carrapato tem a locomoção comprometida, depende de um outro animal para isso. Essa característica reduz os riscos de um surto para quase zero'', explica.
Mas como o ditado diz, é melhor prevenir do que remediar, e por isso, a própria administração municipal já estuda formas para prevenir um improvável aumento da população de carrapatos.
Saúde x economia
Doenças não preocupam só porque representam ameaça à saúde humana. Muitas delas, por sinal, sequer são transmitidas ao homem, mas podem inflingir prejuízos de ordem econômica que constituem uma possibilidade tão concreta de calamidade pública quanto qualquer outra ameaça, natural ou não. É o caso da febre aftosa, que atormenta as autoridades e produtores do Paraná há pouco mais de um mês.
Bastou que fossem citadas duas suspeitas de focos no Estado para que as sanções econômicas contra o Paraná começassem a pipocar por todo o mundo. Estima-se que o Brasil, com 22 focos confirmados até agora somente no Mato Grosso do Sul, já tenha amargado prejuízos superiores a US$ 1,5 bilhão, por deixar de exportar derivados de bovinos para a Europa. Tudo isso em pouco mais de três semanas. ''Joguei fora mais de 1,5 mil litros de leite por dia simplesmente por causa da suspeita da doença. Aqui na região de Loanda, os prejuízos podem ter chegado facilmente aos R$ 150 mil'', conta o produtor rural Alexandre Varotto, um dos prejudicados pela aftosa.
A doença, como já foi dito, não é transmitida para o homem. No gado, ela provoca febre, caminhar difícil e formação de aftas na boca, o que dificulta a alimentação e pode levar à morte. Daí vem a preocupação com os prejuízos e, por consequência, a imposição de barreiras sanitárias. E, apesar de acreditar que o Paraná não registre focos da doença, o chefe do escritório regional da Secretaria de Estado de Agricultura, Gil Abelin, alerta para o risco ''iminente e real'' de um grande surto de aftosa.
Gripe Aviária
Mais desconhecida, mas não menos ameaçadora, é a gripe aviária, que no último surto, identificado desde 2003 no sudeste asiático, já matou pelo menos 60 pessoas. Como o próprio nome diz, a doença não passa de uma gripe desenvolvida por aves infectadas por algumas variedades do vírus influenza.
Entre animais, a taxa de mortalidade é próxima de 100%, e a capacidade de infecção é impressionante. Um único grama de esterco contaminado contém vírus suficientes para contagiar milhões de aves, o que faz com que a doença se espalhe com extrema velocidade entre granjas.
São estes os fatores que fizeram com que focos da gripe aviária ou gripe do frango, como a doença ficou conhecida fossem identificados na China, Vietnã, Hong Kong, Japão, Tunísia, Turquia, Alemanha, Romênia e Rússia. A quantidade de focos aparecendo simultaneamente e em várias localidades é inédita, segunda a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Ao homem, a doença só é transmitida pelo contato direto com aves infectadas. O contágio, portanto, é difícil. Somente uma possibilidade assusta os pesquisadores, quando o assunto é uma pandemia entre humanos. Em contato com uma ave doente, um humano já contaminado por um vírus da gripe comum pode, sem querer, estar criando condições para uma combinação genética de resultados mortais. O vírus mais perigoso, o H5N1, combinado com as variantes desenvolvidas pelo homem, pode adquirir a capacidade de se transmitir de humanos para humanos.
A última epidemia desta ordem ficou macabramente conhecida. Foi a gripe espanhola, que pode ter matado mais de 50 milhões de pessoas após o fim da 1 Guerra Mundial, em 1919. As previsões mais pessimistas da OMS, contudo, são ainda mais desanimadoras. Estima-se que, no caso de o H5N1 tornar-se capaz de ser transmitido entre humanos, mais de 600 milhões de pessoas sejam infectadas. Destas, pelo menos 25% morrerão.
No Paraná, a doença encontraria o ambiente ideal para se propagar. O Estado, sozinho, responde por 25% da produção nacional de frangos, abatendo, somente em 2005, mais de um bilhão de animais. Para contaminar todo o rebanho paranaense, bastaria somente algumas centenas de gramas de esterco contaminado, que poderia facilmente chegar ao Brasil trazido por alguma ave silvestre, viajando para a América do Sul em busca de calor.
Mas ainda há esperança de salvação. Segundo o presidente da Associação dos Produtores Avícolas do Paraná (Avipar), Alfredo Kaefer, os riscos de o Estado se ver obrigado a enfrentar um surto da doença também são mínimos. ''O ciclo migratório das aves segue o sentido Norte-Sul. Isso significa que precisaríamos ter um foco na América do Norte para corrermos riscos por aqui''.
Além disso, continua ele, ''as aves migratórias se estabelecem basicamente em três pontos do País: no Nordeste, no Pantanal Mato-grossense e na Lagoa dos Patos (RS). Mesmo que o Brasil estivesse na rota das aves européias e asiáticas, o Paraná não seria seriamente ameaçado'', explica Kaefer.





